3 de jun de 2014


Na cozinha


Uóshton tinha chegado novo à cidade, ajudante de obra, mas já letrado não tardou a se impôr aos seus colegas e merecer a confiança do patrão, que um dia lhe propôs fazerem sociedade, para logo a seguir ser nomeado encarregado de obras.
Corria-lhe bem a vida, e chegou o dia em que encontrou uma moça da sua terra e casaram.
Claudinetti, com aquele ar de gente simples, viva e inteligente, convenceu o marido a abrir-lhe um salão de beleza. Um salão de cabeleireiro.
O rendimento do casal dava-lhes para viveram com bastante conforto e até terem uma empregada em casa.
Uóshton subia na vida, acabara de comprar um carro novo, e estava a sentir-se o galã do bairro!
Em casa, de manhã descia para tomar o café, generoso, que Liliani, a empregada, lhe preparava com muito cuidado. Liliani, sempre com um lenço na cabeça, era uma jovem e, como todas as jovens, começou a atrair o olhar guloso do seu Uóshton, mas enquanto ele não abusasse...
O galã é que começava a ter demasiadas aproximações, levantava-se várias vezes da mesa com qualquer pretexto para passar junto dela, e começava já a passar-lhe a mão pelas costas, ao que Liliani reagia com repulsa, e em voz baixa lhe dizia: - Seu Uóshton...
À medida que os dias passavam seu Uóshton ia baixando cada vez mais a mão pelas costas de Liliani, que, coitada, não tinha muita força para reagir. Uóshton ficava feliz ao sentir aquela bunda rija e gostosa, e já começava com alguns segredinhos: - Até logo, Lili.
Assim que ele saía, Liliani, rosnava baixinho: - Lili é a mãe!
Claudinetti, com aquele sexto sentido feminino, estranhava que o marido demorasse tempo demais para tomar o seu café da manhã e decidiu investigar. Através da porta, só com uma nesga aberta, ficou de atalaia, e não tardou a ver a mão do seu homem a descer pelas costas da empregada, vendo também que esta reagia mostrando-se indignada, sacudindo as costas, mas sem querer fazer escândalo.
Claudinetti deixou-o acabar com as explorações anatómicas e quando ele se preparava para sair é que entrou na cozinha.
- Oi! Meu bem. Já de saída?
- Tchau. Até logo.
Quando ouviram o carro afastar-se, Claudinetti chamou a empregada, que se aproximou com medo de ouvir algo desagradável da patroa.
- Liliani. Eu vi que o meu marido anda muito metido. Mas quem o vai meter na ordem somos nós. Não se preocupe.
- A senhora me desculpe...
- Não tenho nada que desculpar. Você nada fez de errado, ele é que vai levar uma lição.
E passou a explicar o plano: no fim do dia, quando ele voltasse para casa, Liliani ficava lá no seu no quarto até Claudinetti a chamar, e esta vestiria a roupa da empregada, com o lenço na cabeça e tudo, e aguardaria na cozinha, de costas para a entrada fingindo estar a preparar alguma coisa. Claro que o marido viria logo com aquela mão leviana e...
Os físicos de Liliani e de Claudinetti não eram muito diferentes, e seu Uóshton, que entrava tão animado e de mão leve para afagar as gostosas partes da Lili, quando entrasse e visse a “moça” de costas não iria, de certeza notar qualquer diferença.
E aí vem o galã do pedaço. Entra, vai direto à cozinha, mete a mão na bunda da “Liliani” e sem saber donde, nem como, leva com uma pesada frigideira na orelha que o derruba no chão.
Zonzo, no chão, a mulher tira o lenço da cabeça, olha-o bem na cara e:
- Com qu’então, seu Uóshton! A meter-se com a empregada, hein? Não tem vergonha? Hoje levou só com a frigideira, da próxima veremos como tratar essa sua tara.
Chamou então Liliani, e diz-lhe:
- Liliani. Não precisa ter mais receio. O senhor Uóshton disse que nunca mais se meteria com você. Pode ficar tranquila. As mãosinhas dele só vão agora juntar-se para rezar! E que o nosso Padim Pade Ciço se apiede dele.
No dia seguinte, Claudinetti lá no seu salão de beleza pergunta às funcionárias:
- Conhecem algum rapaz, jovem, boa pinta, vinte ou trinta anos, que me possa fazer um trabalho, simples lá em casa? Coisa rápida. Menos de uma hora. Tem que ser um moço bem parecido.
- O meu irmão, pode fazer isso. Ele até é bonitão. – Disse a Lucineyde.
- Ótimo. Então, por favor chame-o, e veja se ele pode estar aqui às quatro da tarde.
Lá veio o Odemarson, rapaz de boa apresentação, simpático, simples, humilde, ainda muito do interiô.
- Meninas, eu hoje saio mais cedo, vou levar o Odemarson lá a casa. Boa noite, até amanhã.
Já em casa, Claudinetti montou outra arapuca ao marido. Mandou outra vez Liliani para o quarto para não ser vista, tendo-lhe antes explicado o plano. Arranjou um avental para Odemarson, e explicou-lhe que tudo quanto este tinha a fazer era, quando o marido, o seu Uóshton, entrasse em casa, fingir que preparava alguma coisa na cozinha. Talvez cortar batatas. Fingir que era cozinheiro. Nada demais. O resto era com ela.
Aguardaram ambos na cozinha e ouviu-se o carro chegar e o marido entrar em casa.
Vinha todo animado.
- Claudinettiii! Meu bem? – Para se assegurar que a esposa ainda não havia chegado. Mas ela estava.
- Oi! Quirido. Estou na cozinha. Vem cá.
Uóshton foi entrando, mas com cautela não fosse levar outra frigideirada na cara.
Abre a porta e vê a esposa, a Dona Claudinetti, sorrindo, a apalpar a bunda do esgaziado Odemarson que não entendia o que se passava e receava até levar um tiro do marido enganado.
Uóshton, estaca à entrada, arregá-la o olho, e fica mudo.
- Uóshton! Você pensa que é o único que pode apalapar os empregados? Olhe aqui, ó garanhão: dispensei a Liliani e vou ficar só com o Odemarson que é uma grácinha, não acha?
Uóshton de tão roxo parecia que ia ter uma apoplexia. E sempre mudo.
Claudinetti, espera um pouco para gozar a cara do marido e depois chama a Liliani que ao aparecer ainda mais espanta o marido.
Pagou com generosidade o “serviço” do Odemarson, agradece-lhe a colaboração, dispensa-o, mas diz-lhe que não conte a ninguém o que ali se tinha passado. - Ninguém, viu?
- Sim, dona Claudinetti. Pode contar com a minha discrição. Boquinha de siri.
Uóshton teve que se sentar numa cadeira e beber um belo copo e água. Suava.
Claudinetti foi-lhe dizendo:
- Meu amigo. Comigo é assim: olho por olho, dente por dente.
Daí para a frente Uóshton portou-se sempre com respeito e só se demorava na cozinha o mínimo de tempo para o seu café da manhã. Nem se atrevia a levantar os olhos para parte alguma do jovem corpo da sua ex-esperança, Lili.
O casal não se desentendeu mais.
Mas... no salão da Claudinetti, o chique Salão Clau, as cabeleireiras, durante anos, contaram a todas as clientes, a manobra, braba, e esperta da patroa. Para isso haviam contado com a “discrição” da boquinha de siri do Odmarson!
E algumas acrescentavam até um pouco de pimenta à história que ficou célebre, e houve clientes que gostaram da “receita”.
Uma delas, de repente, esteve quase dois meses sem aparecer.
Claudinetti, assim que a viu voltar, perguntou se tinha estado doente.
Não. O marido também se tinha estado a enfeitar com a empregada e ela tinha decido aplicar o mesmo estratagema. Mas não deu muito certo.
Quando ele entrou em casa e me viu com a mão da bunda do irmão da faxineira, tal como você fez, correu para cima do desgraçado que teve que saltar pela janela, e o pior, é que a seguir deu-me uma chapada que andei com um olho negro um monte de tempo. Por isso não apareci.

Cai o pano.

08/03/2014