23 de jun de 2009



Dois textos publicados no último domingo no jornal "O Globo", por dois dos mais conceituados jornalistas e escritores.A eles cabe fazer o que eu já cansei: apontar, com saber e graça, as desgraças que a o Brasil está sujeito.
Devo ainda afirmar que o tal doutor Amorim, não é da minha família, nunca foi nem há-de ser, membro de extrema esquerda do (quase) falecido partido tratskista, ainda em pleno fulgor neste país.


A diplomacia kung-fu
do doutor Amorim
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"Retrato" pelo caricaturista Cruz, do famigerado dr. Amorim
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ELIO GASPARI
Emoldurado pelo luxo asiático-stalinista do pa­lácio do presidente Nursultan Nazarbayev, no Cazaquistão, o chanceler Celso Amorim fez a defesa do quê seria a política "realista" de Nosso Guia em defesa dos direitos humanos dos ou­tros: "É uma questão de concepção. Tem gente que quer (...) ficar em paz com sua consciência e purgar os pecados 4o colonialismo".
O doutor Amorim cortejou o ditador do Zimbabue, agradou ao soba do Sudão, recebeu o chanceler da Co­reia do Norte e, num lance de audácia, convidou o pre­sidente do Uzbequistâo para dar um pulinho a Brasília.
Pode-se fazer de conta que Amorim não sabe quem é o presidente Nazarbayev, do Cazaquistão. Ele está no poder desde a, época da, falecida Untáo Soviética, com direito a quantas ree­leições quiser.
Como não há oposição no seu reino, em 2006 ele foi a Wattínaton para dar queixa de Borat ao presidente George Bush. Estima-se que sua fortuna chegue a US$ l bilhão. Prova não há, por­que ele é homem cuidado­so. Durante uma visita do secretário de Estado ameri­cano, agendou uma impor­tante conversa para a saúna (leia-se: só eu gravo).
Nazarbayev é um santo se comparado com outro convidado de Nosso Guia e de Amorim. Islam Karlmov, presidente do Uzbe­quistâo, esteve em Brasília em maio passado. Ele também está no poder desde o tempo da falecida União Soviética. Como os demais tiranos, massacra a oposição e rouba o que pode, mas Karimov conquistou um lugar na galeria das atrocidades:
Em pelo menos um caso, sua polícia ferveu um opositor. Ferveu, não confundir com jogar na água fervendo. Quem diz isso é um laudo de patologistas da Universidade de Glasgow.
Karimov só não se tornou um tirano do tipo Geni porque mereceu a proteção dos Estados Unidos, a quem quase certamente agradou hospedando uma central secreta de torturas da CIA. Isso e mais as fa­cilidades que concede a empresas mineradoras ame­ricanas. Sua filha está com a prisão preventiva decreta­da nos Estados Unidos por roubalheiras. George Bush não teve peito de convidar o companheiro Karimov pa­ra visitar Washington.
Quando, no Brasil, pendu­ravam-se no pau de arara ad­versários da ditadura (inclu­sive um irmão de Nosso Guia), o secretário de Estado Henry Kissinger patrocinava uma política de simpatia "realista" com Brasília. Anos depois, Jimmy Cárter assu­miu a Presidência dos Esta­dos Unidos e pressionou Pindorama. À época, os hierarcas do Itamaraty diziam que sua iniciativa era colonialis­ta e continuavam negando passaportes para exilados.
ELIO GASPARI é jornalista


Sangue novo na imprensa


A nova esperança das letras brasilienses


JOÃO UBALDO RIBEIRO
Sou do tempo em que se falava na "imprensa escrita, falada e televisionada" e, para ser sincero, implico com a palavra ''mídia", embora saiba que não adian­ta. Mas é que essa palavra entrou em meu vocabulário através do inglês, onde ela ainda é como em latim: sin­gular "médium", plural "media". En­tre nós, ganhou um acento e virou coletivo. Não tenho nenhum argumento realmente defensável contra esse fa­to, é a velha rabugice mesmo; acho que com a idade ela vai piorando. Mas deve haver algum dispositivo no Estatuto do Idoso que me dê direito a isto, de forma que apenas aviso que, quando escrevo sobre imprensa, penso na escrita, na falada e na tetevisionada.
A semana que passou touxe novidades para a imprensa. Não me refiro à extinção da exigência de di­ploma para o exercício da profis­são de jornalista, até porque acho que nada vai mudar muito. A im­prensa certamente procurará con­tratar profissionais de áreas diver­sas da comunicação para atender a algumas necessidades, notadamente de jornalismo analítico e especializado, mas deverá continuar a dar preferência genérica a profissionais formalmente habilitados, e um diploma de jornalista ainda pesará no currículo.
Grande novidade mesmo foi o anúncio de que o presidente terá uma coluna nos jornais. Ainda não sei direito como é que vai ser, mas fico maravilhado mais uma vez. Aqui acontece de tudo, até mesmo um jornalista militante que, segun­do ele mesmo nunca leu um jornal e sabe apenas que é um papel dobrado, que solta tinta e estaria me­lhor embrulhando peixe ou recicla­do como papel higiénico. Eu ia mencionando também a necessida­de de saber escrever, mas me lem­brei de um ou dois coléguinhas no passado e manda a honestidade re­conhecer que, em certos casos, sa­ber escrever não tem a menor im­portância. Além disso, os presiden­tes costumam contar com auxiliares que escrevem para eles, é uma prática universal.
Está certo, mas fico pensando como, se a notícia sobre a coluna for verdadeira, estamos mais uma vez conseguindo feitos sem prece­dentes. Leremos nos jornais a colu­na de alguém que não sabe redigir e que nunca lerá o que escreveram por ele, Que é que é para fazer — fingir que é ele quem escreve e que ele sabe do que se trata? Deve ser. Por outro lado, considerando a inescapável função crítica da boa imprensa, ele vai criticar quem? Assim como a imprensa costuma vigiar e criticar os governantes, tal­vez ele critique os governados, quem sabe. Talvez a coluna pegue um nome como "Pito à Nação", ou coisa assim. Creio que estamos até precisando, embora talvez não do teor que ele pensa.
Como daqui a pouco não haverá mais países para ele visitar e assim evitar trabalhar onde devia, imagi­no que apenas a coluna e o progra­ma de rádio que ele já tem não se­rão suficientes para distraí-lo. Cla­ro, resta a televisâo e não há por que rejeitar a ideia de um Domingão do Lulão apresentado por ele, com quadros como "Topa Tudo por um Cargo'*, "Você Leva e Eu Não Vejo", "Se Faça sem Fotça", "A Maracutaia da Semana" e outros, em que serão sorteadas bolsas, cestas bá­sicas, sineçuras na Petróbras e si­milares.
O novo colega, também se co­menta muito, virá junto com um pretendido enfraquecimento da imprensa, através principalmente da, manipulação da distribuição de no­tícias e respostas a perguntas de repórteres ou noticiaristas. De no­vo, não sei bem o que se pretende, mas, já que a imprensa é responsá­vel por tudo o que de mau aconte­ce, da ladroagem geral ao trata­mento imoral da coisa pública, ca­la-se a Imprensa e os problemas na­cionais acabam.
Bem, isso tudo seria engraçado e poderia gerar piadinhas infinita­mente, mas o fato é que não é en­graçado e não se pode tratar o cer­ceamento da liberdade de impren­sa como leviandade; Hoje, num país em crise ética e moral sem prece­dentes, onde a sensação que se tem, diante do aluvião avassalador de escândalos e ladroagem impu­nes, é que isto aqui virou um carnaval ensandecido de larápios, vi­garistas e aproveitadores por tudo quanto é canto, a imprensa, com todos os seus defeitos, permanece o Qnico "poder" realmente demo­crático, em contraste com a situa­ção a que chegaram os poderes ofi­cialmente constituídos. Ao contrá­rio deles, a imprensa está sujeita à permanente fiscalização e ao julga­mento, frequentemente severo, de seu público. Deve — e presta — sa­tisfação a seus leitores, ouvintes e espectadores. Não pode se lixar pa­ra a opinião de seu público e, se um órgão de imprensa trai seu público, a sanção, em forma de queda talvez fatal na circulação ou credibilida­de, é pesada e inevitável, novamen­te ao contrário do que ocorre na es­fera oficial. •
E esse tiro, que talvez pareça fá­cil, mas não é, pode sair pela cula­tra, mesmo que de início bem sucedido. Vai ver, os interessados acham que a imprensa é parecida com eles. Não é. O que vai aconte­cer com a imprensa, se privada das fontes oficiais, é que ela irá buscar a informação onde quer que esta puder ser obtida. Multiplicar-se-ão, inevitavelmente, vazamentos de informação, e as consequên­cias, para quem queria estancar as denúncias; poderão ser opostas, ou seja uma chuva de escândalos ainda mais estonteante.
O problema, naturalmente, não é nem nunca foi a imprensa, nem existe o tal denuncismo de que o presidente falou. O que existe é sa­fadeza mesmo em todos os setores do governo e do Estado e aqueles que sabem um pouquinho do que se passa em torno não aguentam mais ter sua inteligência e seus va­lores insultados, geralmente de for­ma grosseira e cínica. Mas talvez o novo coleguinha resolva o proble­ma. Antigamente se ensinava que a notícia bem feita diz na abertura o quê, quem, quando e como. Ele bem que podia fazer isso na primei­ra coluna dele, ia ficar com assunto para muito tempo.
JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.

19 de jun de 2009

O inimigo não faria melhor
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Só pode o ilegal

CARLOS ALBERTO SARDENBERG
Deu nos jornais: a usina hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira, pode ficar sem li­cença ambiental; aumentou no Brasil a quantidade de energia ge­rada por usinas movidas a carvão e diesel, poluidoras; há 2.100 quilóme­tros de rodovias no país com obras paradas por falta de licença ambien­tal; o desmatamento da Mata Atlân­tica segue no ritmo de 34 mil hecta­res/ano, no período 2000-08.
Eis uma pequena amostra do que ocorre no Brasil: projetos formais, de­senvolvidos à luz do dia, dentro da lei, param na legislação ambiental e nos órgãos encarregados de aplicá-la; já es­ses mesmos órgãos são incapazes de barrar o desmatamento ilegal e as emissões ilegais de carbono.
É claro: é mais fácil ficar nos gabi­netes de Brasília analisando projetos no computador do que entrar nos confins da Amazónia. Mas entrar mesmo, colocando pessoal do Ibama e da Polícia Federal em ação perma­nente e não em operações isoladas para marketing.
É evidente que está errado. A come­çar pela legislação. Estão em vigor no Brasil nada menos que 16 mil normas ambientais. O Código Florestal é de 1965, desatualizado, claro. Mas a pro­posta de reforma dorme no Congresso há dez anos, tendo a companhia, no momento, de outros 130 projetos de lei tratando do mesmo assunto. E mais um: a Frente Parlamentar Agropecuária está apresentando um projeto abrangente para substituir tudo por um novo Código Ambiental.
Não é de estranhar que cresçam as disputas internas no governo Lula. O pessoal do Dnit, órgão do Ministério dos Transportes encarregado das ro­dovias, diz que o Ibama atrasa as licenças; o Ibama diz que os projetos do Dnit estão errados ou nem foram apresentados, mas reconhece que faltam funcionários para dar conta da quantidade de processos.
O ministro Minc, do Meio Ambien­te, está em disputa aberta com o mi­nistro Stephanes, da Agricultura. O resultado é desalentador. As disputas revelam uma falta de orientação que começa no governo. O presi­dente Lula coloca no ministério um ambientalista e um representante do agro-negócio — e que se virem. Pede as es­tradas do PAC ao ministro dos Trans­portes e dá força ao Ibama. Ou seja, re­força a confusão, inclusive, quando re­clama pubicamente do Ibama e não faz nada para mudar o sistema.
E, se o governo não tem uma orien­tação, como poderia organizar o de­bate no Congresso e na sociedade?
Além disso, o governo, que adota uma legislação interna tão rigorosa quanto complexa, no quadro interna­cional se recusa a adotar metas de re­dução de emissão de carbono, afir­mando que esse é um problema dos ri­cos, pela poluição que causaram. E as­sim fica o Brasil ao lado da China, a grande poluidora, que sustenta a mes­ma tese (e que é bem capaz de estar produzindo e exportando móveis com madeira ilegal tirada da Amazónia).
A desorientação geral e mais a complexidade da legislação e a buro­cracia infernal dos procedimentos criam disputas infindáveis e abrem espaço para negociações na versão do puro quebra-galho.
Tome-se um dos problemas da usi­na de Jirau. O governador de Rondônia, Ivo Cassol, se recusa a dar a li­cença, necessária porque a obra atin­ge parques estaduais. Mas ele topa conceder a licença se o Mine desistir da retirada de cinco mil famílias que ocuparam uma reserva federal no es­tado e a estão desmaiando. (O que, aliás, demonstra que pequenos agri­cultores, assentados da reforma agrária e invasores desmatam e po­luem,, ao contrário do que dizem os amblentalistas que põem toda a cul­pa no "grande agronegócio".)
Mas reparem no caso de Rondônia: se a usina de fato causa prejuí­zo aos parques estaduais, então não há o que negociar. Igualmente, se as famílias estão de fato desmatando a reserva federal, também não há o que negociar.
Entretanto, rola a negociação por­que essas legislações complexas per­mitem qualquer interpretação, tudo dependendo de força política.
Resumo da ópera: país com enor­mes carências de infraestrutura, o Brasil conseguiu bolar um jeito de paralisar estradas, portos, usinas limpas, aeroportos, ferrovias e fábri­cas diversas, enquanto deixa rolar o desmatamento ilegal e a emissão de carbono,
O inimigo não faria melhor.
CARLOS ALBERTO SARDENBERG é jornalista.

sardenberg@cbn.com.br
Quinta-feira, 28 de maio de 2009, in “O Globo”


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CORA RONAI – escritora e jornalista
Nunca antes na História deste país se viu tanta roubalheira e tanto descaramento num endereço só. O Seriado está abusando da paciência dos brasileiros e o pior é que, pelo quê se vê, pode abusar à vontade. O máximo que acontece a senador pego em flagrante é ter de devolver o produto do roubo — como se, com isso, ficasse tudo bem. E fica, não fica? Os princípios básicos da moral e da Justiça não valem no Congresso Nacional, onde a imunidade lamentar, instituída com o nobre intuito de defender a democracia, virou uma excrescência insólita que apenas garante a impunidade criminosos.
É assustador (e nojento) perceber que, no Congresso Nacional, exibe-se hoje o que o se tem de pior, a começar pelo coronel José Sarney nos tomando a todos por otários. Tem razão, porque aqui estamos, otários que somos, pagando os impostos mais pesa­dos do mundo para que nada jamais falte às excelências, suas famílias e agregados. Ele tem razão também quando diz que a atual crise não é sua, mas do Senado. Num senado decente, ninguém lhe daria bom dia, e os demais senadores teriam vergonha de serem vistos sua companhia. Pois lá não só o elegem presidente da casa, como fazem questão de abraçá-to depois de um discurso sem vergonha como aquele de terça-feira.
Está ficando muito cansativo falar sobre a bandalheira, ler sobre à roubalheira, escrever sobre a roubalheira. Um escândalo é sepultado por outro que é enterrado por um terceiro e assim sucessivamente. As manchetes de hoje são iguais às do mês passado e serão iguais no mês que vem, nem os personagens mudam. A crónica que foi escrita no começo do ano e do milénio poderia ser republicada após ano, ano após ano, ano após ano...
Os safados estão conseguindo nos vencer pelo tédio.


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Como todos os brasileiros que estão acompanhando as eleições irânianas, eu também tive vontade de me enfiar debaixo sofá de pura vergonha, ao ouvir Lula dar apoio incondicional ao presidente golpista Ahmadlnejad. Sé, como o coronel Sarney, Lula também acha que tudo que o contraria é intriga da imprensa, que pelo menos circule pelo Twltter antes de dizer a primeira coisa que lhe vem à cabeça.
A luta dos iranianos na internet tem sido comovente. Com quase todas as comunica­ções bloqueadas no país, eles têm usado as redes sociais, que estão fora do alcance das garras dos aiatolás, para contar ao mundo que está acontecendo lá. Notícias não param de chegar ao Twitter, que até cancelou uma parada de manutenção na madrugada de terça; e Facebook e Flickr têm recebido incontáveis fotos das manifestações, que blogueiros fora do Irã se encarregam de espalhar.

Cora Ronai é escritora e jornalista.
www.cora.blogspot.com
cora@oglobo.com.br

em “O Globo”, 18 jun 09

19 jun 09

15 de jun de 2009

Brasil: uma guerra urbana


Visão comum nas manifestações entre gangues e polícia
Redação Terra Magazine

O mito de país pacífico se confronta com as ruas, os medos, o cotidiano dos brasileiros. Uma constatação atravessa as diferentes bases de dados oficiais: o número de homicíos expõe uma guerra urbana invisível, quando muito exibida em sua face minúscula em sites, revistas, rádios, televisões e jornais. A cordialidade aparente do Brasil e das suas metrópoles não subsiste aos números da violência. Uma guerra por década. Uma só guerra por décadas.
Terra Magazine, a partir desta segunda, 15 de junho, contará as vidas esquecidas de dez brasileiros que não tiveram a chance de concluir desejos ínfimos. O extraordinário cotidiano de homens e mulheres comuns. Histórias finalizadas pela violência, quase sempre banal e mal revelada.
Estimativas sobre a base de dados do Ministério da Saúde - a partir dos atestados de óbitos - permitem afirmar que mais de um milhão de brasileiros foram assassinados desde 1979 no País. Em tempo: nos 11 anos da guerra encerrada em 1975, os EUA e seus aliados perderam 54 mil soldados - entre as estimadas 1 milhão a 1,5 milhão de vítimas no Vietnã.
Em três décadas de sua guerra nas ruas, o Brasil perdeu um milhão de homens e mulheres, quase sempre jovens. Para perder algo como 2 milhões de vidas em Angola, matou-se por quase quatro décadas, 38 anos, numa das mais ferozes guerras que o mundo já viu.
No Brasil, em 2007 e 2008, a média anual de homicídios girou em torno de 47 mil. De 1996 a 2006, ocorreram 505.945 mil assassinatos. Só em 2006, mais de 49 mil casos.
Outra radiografia, desta vez do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com uma metodologia diferente: dados da "Síntese de Indicadores do Sociais", de 2004, apontam 598.367 assassinatos entre 1980 e 2000. No mesmo período, o Brasil registrou mais de 2 milhões de mortes por causas externas e, a maioria delas, 82%, foram de homens.
Se nos anos 80 os acidentes de trânsito eram a principal causa externa dos óbitos masculinos, na década de 90, os homicídios assumiram a liderança. Mudou o perfil da mortalidade no país. Em vinte anos, o índice de mortalidade por homicídio cresceu 130%.
Em 2004, a partir da política de desarmamento nacional e da adoção de políticas públicas, os números começam a ser freados. As estatísticas dos homicídios caíram para 48.374, a primeira queda no ritmo de crescimento desde 1990.
Vale lembrar que, desde então, a proibição de porte de armas de fogo sem registro oficial passou a vigorar no Brasil. Em 2005, 59% dos brasileiros, em referendo, apoiaram o comércio de armas de fogo e munição no Brasil.
Outras medidas, como a restrição do horário de funcionamento de bares, a criação de equipamentos sociais e a capacitação das polícias estaduais - apesar dos excessos ainda registrados - também influenciaram na redução.
A tendência de queda nos homicídios continuou em 2005 e 2006 em todo o país - 47.578 e 46.660, respectivamente. A redução não foi suficiente para retirar o Brasil do grupo de países que estão acima da média mundial de assassinatos.
De acordo com o último relatório do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre Execuções Arbitrárias, Sumárias ou Extrajudiciais, divulgado em 2008, o Brasil tem mais do que o dobro da taxa média de homicídios no mundo.
O país chega a 25 homicídios por 100 mil habitantes - dados referentes a 2006 - contra a média de 8,8 no mundo - dados de 2000, o último cálculo oficial da Organização Muncial de Saúde. A comparação não leva em conta as mortes em guerras.
Em 2006, a cidade de São Paulo ainda mantinha em números absolutos a liderança por mortes violentas, seguida pelo Rio de Janeiro. Recife, porém, era a capital com o maior índice de violência proporcional - 90,5 homicídios por 100 mil habitantes.
Agora, logo no início de 2009, São Paulo comemora: pelo nono ano consecutivo, o número de assassinatos caiu. Em 2008, 66% assassinatos a menos em São Paulo.
Em 2007, o bairro de Alto de Pinheiros, classes A e B de São Paulo, registrou 301 assassinatos. Mesmo ano, mesma cidade, outra realidade: 1.408 pessoas foram mortas em Brasilândia, na periferia paulistana. A somatória de homicídios em São Paulo naquele ano: 63.729. Ou, em taxas: 604 habitantes mortos/100 mil habitantes. Com 3 mil assassinatos em 2008, Recife segue sem políticas públicas eficientes; foi chamada de "capital brasileira dos assassinatos" pelo jornal britânico The Independent.
Com as pequenas biografias de desejos e viagens comuns, Terra Magazine mostrará as faces ignoradas da violência. Por questão de lojística, vai se ater a casos ocorridos na Grande São Paulo, mas que simbolizam parcelas mais amplas do Brasil. De Recife a Porto Alegre, as estatísticas embutem um País ainda não compreendido.
Segunda, 15 de junho de 2009, Atualizada às 11h50
http://terramagazine.terra.com.br/
N.- Ver os meus textos anteriores! É uma tristeza ter-se "razão" aos escrever sobre estas verdades!
do Brasil, por Francisco G. de Amorim
15 jun 09

9 de jun de 2009

Folhas soltas

“— Bem, bem! Assim é! — bradou o povo todo. — A el-rei queremos por senhor, e a ninguém mais.
Burgueses daquele bom tempo inocente, em que tendeiro nem especieiro (merceeiro) não sonhava ainda com os baronatos, os viscondados e as grãscruzes, nem com a mão ensebada de pesar manteiga, aspirava a tomar a pasta de secretário, ou a assentar a nadega lustrosa da calça de couro no veludo das cadeiras do Conselho de Estado, burgueses legítimos ainda, como eram aqueles pobres pançudos senadores da nossa terra, é evidente que no fundo de suas entranhas — ou, para dar mais cor local à frase, no fundo de suas tripas— achavam eco de simpatia aquelas altaneiras e democráticas palavras do mancebo. Democráticas, porque nessas eras feudais a democracia e a coroa tinham os mesmos interesses, a sua causa era comum.
Estou pensando... e nao se arrepiem os meus amigos liberais!... que pelo geito que as coisas hoje levam, antes de muito, o povo terá outra vez de estreitar mais fortemente a sua aliança com a monarquia, para se defender do omniabsorvente despotismo dos senhores das burras (cofres de dinheiro), dos alcaides-mores dos bancos e de todo este feudalismo agiota, que é a fatal lepra da democracia, que a roi e a carcome, e que não vejo formas nem meios na democracia só para os combater. As vagas teorias do socialismo, os sonhos do comunismo, não me parecem provar senão a impotência da forma contra o poder da matéria.”
De: João Batista de Almeida Garrett – “O Arco de Sant'Ana” – 1845
Grande poeta, romancista, dramaturgo, político e tribuno, imaginem, se forem capazes, o que ele diria ou escreveria hoje se ainda por cá andasse. Nas duas margens deste grande rio.
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Há poucos dias, no jornal “O Gobo”:
“ A pedagogia do palavrão e a metodologia da obscenidade estão ocupando o lugar da educação de qualidade.”
E depois discutem-se cotas para entradas na universidade aos oriundos das escolas púbicas onde o ensino...
Instrução básica, primária e secundária, quase não se discute. As revistas, o cinema, e hoje em dia sobretudo a internet, divulgam um palavreado que nem o mais sujo estupor tem coragem de usar!
Basta dar uma vista de olhos nestes números:
- 25,8% da população rural do país, acima de 15 anos, é analfabeta;
- pelo mesmo critério, nas áreas urbanas, são 8,7%;
- no Nordeste, na área rural só 11,6% dos jovens estão matriculados no ensino médio;
Estes... também votam, se necessário, no 3°, 4° e 20° mandato!!!

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Estatísticas:
O mundo treme e fica horrorizado com os grande desastres naturais e com as guerras que continuam a assolar tantos países e sobretudo tantos miseráveis a sofrer com isso; indigna-se com a condenação a trabalhos forçados de duas jornalistas norte americanas porque teriam tentado entrar na Coreia do Norte sem o necessário visto; ameaça que vai ameaçar o ameaçador Kim Jong-il, que se está “bem lixando” para os americanos e o resto do mundo; chora (os que choram) pelos miseráveis de Darfur, da Somália, Etiópia, Congo, os paquistaneses do vale Swat, as vítimas do 09/11, e dos desastres de aviação, e nós, aqui neste país abençoado por Deus, já quase nem ligamos para o ínfimo espaço ocupado pelos jornais a informar que só no primeiro trimestre deste ano a polícia confirma 1.695 assassinatos no Rio, 1.574 em Pernambuco, além de outros tantos milhares nos outros estados!
Só nestes dois estados morreram, assassinados, em três meses, mais infelizes do que em todas as guerras que assolam o mundo!
E os governantes discutem a partilha dos cargos altamente remunerados, o terceiro mandato do cabeça chata analfabeto, e o futuro... que se lixe!

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Entretanto vai-se a um supermercado popular com as bancas cheias de imensos legumes lindos e fresquissimos, frutas às dezenas de variedade, carne e peixe com fartura, e se por acaso alguém não sabe onde encontrar determinado produto e pergunta a uma funcionária, ela, suave e doce como a alma deste povo, mistura de três continentes com a Graça do Espírito Santo, começa por responder: “Oi! Amor! Vem comigo que eu mostro!”
Só isto consegue apaziguar as nossas dores por tanto sofrimento e injustiça, e a não ter tanta pressa que o futuro chegue com as suas matemáticas frias, o feudalismo agiota, a pedagogia do palavrão e a indiferença perante tanto crime, tão pouca justiça e tamanha ausência de responsabilidade!
do Brasil, por Francisco G. de Amorim
08 Jun. 09

5 de jun de 2009






















As Barbas do(s) Imperador(es)


Só os medíocres são populares. – Oscar Wilde
A soberba é o maior expoente da ignorância – Paolo Mantegazza


Muito bom o livro com o título acima (no singular!), da escritora Lília Schwarcz (Companhia das Letras, 1998), sobre a vida de Dom Pedro II. São cerca de 600 páginas de boa história do Brasil e da vida de um homem que pela graça de Deus já nasceu para ser imperador.
Homem bom, culto, protetor das artes, como convém a qualquer imperador que se preze, sobretudo quando essa proteção sai dos cofres do povo, é evidente, a quem coube “imperar” numa época confusa, tumultuada pelas idéias da Revolução Francesa e todos os “gritos” de independência que varriam as Américas desde a Declaração dos Estados Unidos.
Frouxo, ou fraco, como queiram, manietado pelos grandes senhores de terras e pela maçonaria, enfeitado com cocáres de índios, imperador de escravos, não soube ou era incapaz de governar.
Quando, em 1889, lhe foram dizer: “Imperador! Vossa Majestade não é mais Imperador” (beleza de convicção política, hein?), e lhe deram 24 horas para abandonar o Brasil, Dom Pedro lá se foi triste e saudoso, velho e quieto, sem revolta, desejando para o Brasil o melhor futuro possível. E não consta que fosse mentiroso, nem ladrão.
Passam-se 120 anos, o futuro teima em chegar, e um novo imperador desponta nos raios fúlgidos do assalto à democracia, seja com a preparação da “herdeira do trono”, à la Kim Jong-il, a la Bashar al Assad, que herdaram a presidência de seus papás, a la Mubarak que a quer passar a um filho, ou com a perspectiva de terceiro mandato.
Nunca neste país se havia fazido isto (sic lula). Mas como tudo vale a pena se alma não é pequena, e sobretudo porque os cofres públicos, apesar da escandalosa dívida pública são mãe generosa, o novo império bolivariano (também a la Chavez, Correa, ou Morales) está a preparar o golpe a la eternidade: o 3° mandato, e quem sabe se seguido por um “mandato tampão” de mais uns 5 anos, para... para... enriquecerem mais ainda, se possível isso for.
Moral da história: caminhamos para novo império da corrupção e da alienação total da res publica e da moral da República, tendo já quase uma centena de deputados dado entrada com pedido de revisão da constituição.
Cláusulas pétreas na nossa constituição são somente as que permitem que se roube à vontade e que, por exemplo, se permita que o presidente do STJ – o tal SUPREMO – tenha como colegas oito juízes que são seus empregados na firma de advocacia que mantém paralelamente ao cargo oficial.
Isto enquanto sua majestade dom lula I insiste na sua desbocada verborréia, tendo afirmado, sobre este gravíssimo e tristissimo desastre do avião da Air France, que para um país que encontra petróleo a 6.000 metros de profundidade, encontrar a caixa preta do avião a 2.000 é coisa simples.
Ignorante, não trabalha, nem nunca trabalhou na vida, a não ser o tempo necessário para cortar um dedo e usufruir uma aposentadoria superior à que teria se tivesse trabalhado 30 anos, ainda se permite fazer piada de boteco, quando o mundo inteiro sofre com este desastre.
Compensa-o o ministro da defesa que afirmou que uma palete de madeira, encontrada no mar, era, sem dúvida, uma peça do Airbus. Para o ministro da defesa (?) do Brasil os aviões ainda são construídos em madeira!
Não sei se dê vivas à República se à Monarquia!
Muito menos se sabe como pôr as barbas de molho. As nossas.
por Francisco G. de Amorim
5 jun. 09