26 de jul de 2009

.

O céu continua estrelado, mas a ordem e o progresso...

Infelizmente não há nada a fazer!
.

O céu estrelado por sobre mim e a lei moral dentro de mim.

Immanuel Kant

Este país é agora adulado por dois extremistas fascistas, um de direita e outro de esquerda, qual deles o pior, e que o diabo escolha se for macho suficiente: um, ministro dos negócios estrangeiros de Israel, Avigdor Lieberman, racista e extremista, que vem pedir ao nosso big kxk que não dê muita ênfase à visita do presidente do Irão, Mahmud Ahmadinejad, extremista e racista - amigo dos peitos do Chavez -, que decidiu que a sua primeira visita, após tomar posse para o segundo mandato, seja ao Brasil, para, em primeiro lugar mostrar ao mundo que há um país importante que louva o resultado daquelas malditas eleições, e ao mesmo tempo pedir ajuda para ver se o Brasil também “malha” nos sionistas!
Não há melhor interlocutor para os receber e deixar que ambos chorem no seu ombro, do que o nosso big sheriff! Como jamais fez alguma coisa pelo país sendo seu máximo dirigente, nem reformas básicas, nem investimento em infra-estruturas, nada, e com o desastre que tem sido a atuação do nosso (deles!) ministério das relações exteriores, o resultado destas duas famosas visitas... vai ser zero.
Zero para eles e abaixo de zero para o Brasil. Uma beleza, ou uma vergonha, recebermos dois indivíduos que são, cada um no seu extremo, o oposto da democracia, dos direitos humanos, da dignidade? País nenhum os recebe, e eles vêm procurar apoio no Brasil!
Sérgio Vieira de Mello*, um dos grandes e esquecidos homens deste país, tristemente assassinado num ataque com carro bomba na loucura do Iraque, em Bagdá, onde estava como chefe da missão da ONU, disse um dia, numa aula no Instituto de Altos Estudos Internacionais da Universidade de Genebra:“...uma das dificuldades insolúveis mais antigas e mais profundas do pensamento e do comportamento humano é a tensão, a incompatibilidade, o choque entre a moral e a política”. E continua: “Que a política seja, por essência, distinta da moral, está mais do que claramente demonstrado pela existência da história. Mas essa incompatibilidade seria a confirmação cínica da inevitabilidade do mal, e do mal absoluto da história. Sem dúvida alguma, a escolha mais fácil, mas também a mais irresponsável, é aquela em que tudo, absolutamente tudo, pode ser rediscutido. Tal posição é manifestamente insustentável”.
Esta linha de pensamento define os grandes homens, talvez os homens normais. Estes não discutem nem ética nem moral. Elas são intrínsecas ao caráter do homem, com “H” maiúsculo, que o distingue das bestas, grandes ou menos grandes.
O espetáculo a que, cada vez mais profundamente estamos a assistir neste país, é de uma degradação impressionante. Não escapa governo, nem senado, nem câmaras, sejam elas de deputados federais, estaduais ou municipais, nem polícia, nem tribunais. Nada! Tudo se vende, tudo se compra, tudo se corrompe.
Imagino que quem aqui não viva possa fazer a pergunta: “Como é que o país sobrevive e ainda progride?” É que, apesar de tudo, são quase 200 milhões de habitantes que todos os dias têm que lutar para sobreviver, alguns para vencer, e por muito que o (des)governo se ausente e descomande, que o senado se corrompa até à vergonha absoluta, que os tribunais castiguem o ladrão de galinhas e deixem impunes os “colarinhos brancos”, aliás “colarinhos de ouro”, o país tem que crescer.
A leitura de qualquer jornal, diário, é pior do que tratamento de choque! Choque de pouca vergonha, de violência, de impunidade, e sobretudo o choque do descaramento com que tudo se embrulha e discute e rediscute, como se roubar aos bilhões os dinheiros públicos, corromper a todos os níveis, fosse coisa de somenos. Como disse Sérgio Vieira de Mello, isto é insustentável. Este grande brasileiro não viveu o suficiente para ver o seu país degradar-se moral e eticamente até ao mais baixo nível, o que lhe teria sido doloroso, como é para todos nós. Uma vergonha.
Vê-se o presidente defender com todos os meios - $$$ - de que dispõe, e parecem ser infindáveis, os agora seus correligionários que ainda há poucos anos eram os mais ferozes adversários políticos, que ele insultava em comícios chamando-lhes de ladrões! Mas hoje precisa deles na chamada “base” para sustentar a sua inépcia!
Um ex presidente da República, que consegue extorquir das formas mais absurdas verbas fabulosas para enriquecer mais ainda, a ele e a família! Que inclusive “esquece” de participar no seu imposto de renda mais uma “casinha” em Brasília avaliada em 5 milhões de reais!
Ver outro ex presidente que foi corrido por indecente e má figura, a quem o atual, na época, se atirou como hiena a carniça, ser tratado como grã-senhor, abraçando-se ambos com sorrisos de “velha e longa amizade”! Para “nós” – eles – os donos do poder, a sociedade dominante, tudo. Para o resto, o povo imbecil que vota sem ter a mínima noção do que está a preparar para si próprio, o desprezo, o cinismo, o abandono. Referindo uma vez mais Sérgio Vieira de Mello: “...como sociedades diferentes podem desenvolver tamanha desconsideração implacável pela vida humana!”
Perdeu-se totalmente o senso. Qualquer senso. Não há moral nem ética, muito menos vergonha.
A tal lei moral, de que fala Kant é ignorada. Só o céu continua estrelado! Porque os corruptos ainda não conseguiram apoderar-se dele!

* ler: "Sérgio Vieira de Mello – Pensamento e Memória”. Org. Jacques Marcovitch, EDUSP e Ed. Saraiva, 2004.
do Brasil, por Francisco G. de Amorim
26 jul. 09

23 de jul de 2009

Os Humbi-Nhanhekas

Aspeto típico da região

Este texto é extraido de um email do meu querido amigo angolano, Manuel Ferreira Duarte de Sousa. Um homem que dedica grande parte da sua vida ao povo de Angola, em assistência social, médica. Um exemplo para todos e um estímulo a que sigamos os seus passos onde quer que nos encontremos nesta Terra.

Os Humbi-Nhanhekas, onde se dizem incluir Muilas (uns pronunciam Mumuilas) e os Mucubais, parentes próximos uns dos outros, ainda andam por ai de saúde e com suas cabeças de gado a pastar.
Ainda não ha muitos meses, eu próprio estive na região entre a Huila e o Cunene, na Cahama (onde houve grandes, violentos, destruidores e determinantes combates entre as tropas invasoras e ocupantes da África do Sul, Cubanos e Angolanos) e no Otchinjau (zona ocupada pelos invasores/ocupantes Sul-Africanos) e no Okavalalu (onde os Cubanos se concentraram antes da retirada para o Litoral e para Cuba), participando como voluntário pelo Rotary Club de Luanda e pelo Rotary International (do qual – do primeiro – sou atual Presidente desde 1 de Julho passado), e onde a luz ainda não chegou e as estradas são picadas precárias e cheias de pedregulhos e irregularidades, incirculáveis no tempo das chuvas, cuja correnteza as corta em diversos pontos), à imagem do que tenho feito no Kuando Kubango, Malange, Luanda, e outras, e ali ainda são vividos com grande pureza, os costumes e hábitos destes povos, cujos homens, sobretudo do Nhanhekas do Cunene, o cavalo ainda e um elemento fundamental na pastagem dos bovinos.
Felizmente saúde não lhes falta

A particularidade esquelética compleição física destes e evidentemente diferenciada de outros Povos Bantus, quiçá, por breves momentos e à medida que deles estamos próximos, que usualmente são de uma elegância e altura acima da média, tendo cabelo farto e até usando suíças, bigodes e até barbas bem postos e aparados (quase com um aspecto Europeu), nos fazem lembrar os Egípcios, assim como o seu gado, que é constituído por bois grandes e de largas e fartas hastes cornudas, que muito recorda em semelhança e aspecto, aqueles que são desenhados nos afrescos egípcios.

Habitação de uma família

Alem disso, são exímios cavaleiros, não usando aparelhos de montagem (sela), e simplesmente usando uma corda como arreio na cabeça do cavalo, que montam com uma destreza impressionante, podendo acertar num pequeno objeto no chão, com uma flecha e trotando em certa velocidade (dariam bons jogadores de polo, com certeza). Ainda levam um porrete e por vezes uma machadinha, arco e flechas, uma faca afiada (punhal tradicional tribal) com cabo de osso ou corno, muito semelhante aos usados pelos Kuanhamas, também do Cunene (região que vai de Xangongo, onde fica a Prisão do Peu-Peu e onde podem ser encontrados os Imbondeiros mais largos do Mundo, até a Ondjiva/Santa Clara, uma a Capital do Cunene e a outra perto na Fronteira – os Povos da Namíbia e de Angola são parentes, sobretudo neste ultimo caso, onde o relevante Rei Mandume, também é respeitado pelos restantes Povos Ovibambos do outro lado da fronteira -. O Primeiro Presidente da Namíbia, Sam Nujoma pertence à etnia Ovivambo também.)
Estes Nhanheka, usam simplesmente umas peles de bovino ou caprino, nas partes intermédias do corpo, usualmente andando de tronco nu, a não ser que esteja frio, altura em que usam casacos e anoraques normais, como toda a gente. As Mulheres usam lamas e esterco animal como cosmética e proteção do cabelo e da pele, em algumas circunstâncias, misturados com leite e com seivas de árvores e ervas, etc. Quase todas andam ainda com a parte do tronco desnudado e descalças ou com sandálias tradicionais feitas de coro bovino, usando um saiote no ventre, feito de peles de vaca ou boi. Usam ainda colares de contas de madeira, de capim seco trabalhado e miçangas. As Mucubais, na área desértica e semi-desértica do Namibe/Mocamedes, serram os dentes da frente em "v", para melhor trincar/trinchar os alimentos e usam espirais de latão/cobre à volta da parte baixa das pernas, junto ao tornozelo até à barriga das pernas. Este e um símbolo para Mulheres casadas e com filhos ou não. As Mucubais chegam a vir a Luanda, para comercializar um produto vegetal para o cabelo (diz-se que faz crescer e restabelece a saúde do cabelo) e para a pele, de cor preta e com um cheiro ativo, chamado Mupeque. Há quem o use misturado com bronzeador como proteção solar.
Ainda não ha muito tempo, elas circulavam pelas Ruas de Luanda, a quase mil km de onde usualmente vivem de forma tradicional, com os seios livres e à vista, tendo aos poucos, as autoridades forçado a que usem sutiã e panos para cobrir essa parte da nudez.
Olhem este "fofo" !

Vinham e continuam a vir à boleia em camiões, e costumam andar em grupos de duas a mais Mulheres, estando algumas já adaptadas às ruas de Luanda e à língua portuguesa corrente de Luanda.
Segundo dizem, estes Povos praticam o alongamento dos lábios vaginais e do clitóris, ao invés de o extorquirem/cortar, como acontece com outros Povos de Angola, para que as Mulheres possam ter maior prazer sexual, podendo estas Mulheres ainda, por costume, gozar de uma alargada liberdade sexual, podendo acasalar com outros parceiros, para além do Esposo, por vontade deste ultimo, que as pode oferecer a uma visita ou amigo, portanto, em sinal de cortesia, ou por vontade das próprias, quando fora do ambiente tribal e em circunstâncias deslocação. Aparentemente, não existe o conceito de traição marital (adultério) propriamente dito, havendo outras regras de conduta tradicionais, não querendo isto dizer também, que as Mulheres dessas Tribos sejam por completo permissivas e dadas a prazeres pelo simples toma lá da cá.
Quando os vi pela primeira vez em seus ambientes costumeiros e naturais, com suas casas cercadas de espinheiros e de algum do gado (eles não vivem em aglomerados ou aldeias), veio-me à mente, a grande expedição organizada pelo Grande Faraó Ramsés, enviada ao Coração e Oeste e Sul de África (Grandes Lagos), para essencialmente descobrir e explorar a Foz do Nilo, Rio que sempre foi a grande fonte da Vida no Egito e que ele achou conveniente dominar e conhecer melhor, talvez como medida de proteção e também de conhecimento, tendo essa expedição/exército, juntos com seus milhares de cabeças de gado/logistica, nunca mais regressado à base/origem, por diversos fatores adversos, segundo se conta, uns por ataques/emboscadas/confrontos com tribos estranhas ao longo do caminho, por perca de direção/desorientação/revolta, ou simplesmente, por desistência/deserção/dispersão, etc, suspeitando-se que muitos dos elementos, ou de forma organizada ou desorganizada, fixaram-se em lugares de grande fertilidade ou em novas zonas ainda desconhecidas para os Egípcios e para outros Povos (bantus) de Africa).
Cada Pai ou Chefe de Família, tem as suas paliçadas de espinheiras para o gado vário, constituido de bois, burros, carneiros, cavalos, e outras para os cereais (Massango, massambala e variavelmente, algum milho, que constituem sua alimentação base na forma de farinha misturada com leite azedado/chocalhado numa cabaça, alimento muito forte e que tem que se ter um estomago habituado, porque pode causar lesões estomacais, por dificuldade de digestão, para quem e de fora daquele ambiente e hábito.) e aquelas onde ficam a casa principal e alguns silos e capoeiras, no centro de tudo isso.
As restantes casas e cercas dos filhos ou parentes, ficam habitualmente num raio de 1km de distancia em redor do habitat do Pai ou Chefe Familiar, e equidistantes uns dos outros, formando núcleos familiares discretos (filhos, Pais e Irmãos). Outros Grupos Familiares de irmãos dos Pais, ficam invariavelmente um pouco mais distantes, agrupando os filhos respectivos nas cercanias, mas mantendo sempre a distância adequada, supostamente, para que cada elemento possa ter espaço suficiente para que seu gado individual paste em liberdade (e muitas vezes sem a presença do pastor) sem interferências de gados alheios.
É interessante ver logo pela manhã e a meio da manhã, e um pouco depois, lá mais para à tarde, bois, cavalos, burros, carneiros e ovelhas, irem isolados ou em pequenos grupos, diretos aos poços/bebedouros (que até não existem muitos, por ser esta uma região meia seca e Arida, com arvores de médio porte e espinheiras por todo o lado, lembrando muito o Alentejo e certas Regiões da Califórnia), onde à vez e em ordem, cheios de paciência, vão bebendo civicamente à medida que chega o seu turno para beber. Assim que bebem, lá vão eles de volta aos seus locais de origem, para mais tarde, irem por si, ou por condução/indução de pastores, de volta à recolha e à salvaguarda de seus estábulos improvisados nas cercas de espinheiras respectivas. Muito difícil será de alguém se apropriar, desta forma, do gado alheio, pois, por instinto ou por algum senso consciente de orientação, todos os animais, a não ser por engano, ou por serem novos, regressam/recolhem-se à tardinha aos seus respectivos proprietários/cercas. Quando se vê a ordem com que esperam a vez para beberem, e com a variedade de animais que se aglomeram na espera, até relembra uma espécie de reunião de animais para a Arca de Noé, onde não são muito comuns incidentes ou a empurra-empurra da impaciência, que se vê usualmente nas concentrações de seres Humanos, ou nos cruzamentos não sinalizados ou em engarrafamentos de transito automóvel, futebol, etc.
Espero ter conseguido aqui em uma duzia de palavras, sido capaz de traduzir um pouco da imagem ainda atual dos Povos de Angola, sobretudo, dos aparentados ao Grupo Étnico dos Himbas, da Namíbia.

Fotos de Francisco Giner Abati, antropólogo e profesor de la Universidad de Salamanca

16 de jul de 2009

.
Era o vinho, meu bem...

Não era destas uvas que se fazia o vinho para Angola !


Desde os primórdios da expansão portuguesa, e de outros países, pelo mundo, depois do sucesso das especiarias do Oriente e do ouro e preciosidades saqueadas pelos espanhóis aos astecas, mayas, incas e outros, o grande “negócio internacional” acabou por se fixar no tráfico de escravos, onde o Brasil teve um papel importante. E importante sob diversos aspetos:
- primeiro porque precisava de mão obra, que nem Portugal tinha nem os indígenas proviam;
- depois pelo lucro do tráfico entre os diversos portos de África e outros tantos espalhados pelas Américas do Sul, Centro e Caribe, indo até a Argentina;
- e como centro de produção de alimentos, tal ainda hoje é, e mais ainda será em futuro breve, enviou para Angola imensos produtos que por África se foram difundindo, sobretudo a mandioca, o milho, o amendoim, a cana de açúcar, e outros, que rapidamente alteraram os hábitos alimentícios de muitas populações africanas, conseguindo melhorar a sua saúde e resistência. O número de habitantes cresceu sensivelmente em função da melhoria da alimentação.
Curioso notar que já no século XVII os principais “exportadores” de escravos de Luanda eram mestiços brasileiros, como o foram mais tarde em outras regiões de África.
Do Brasil ia muita “farinha de guerra”, a farinha de mandioca que era distribuída aos soldados que marchavam para o interior, onde lutavam com extrema dificuldade de abastecimento, contra os nativos e contra as doenças. Em quase todas as batalhas travadas nesse século, a morte de soldados portugueses (e muitos italianos à mistura) era enorme, quando não ficavam todos dizimados!
Outro produto de muito interesse era a aguardente de cana, a nossa pinga, não só para presentear os sobas com quem se pretendia pumbar – negociar – mas sobretudo para servir de boa moeda de troca por escravos, alguma cera e marfim.
Tanto o vinho como a aguardente eram transportados em peroleiras, vasilhas de barro de formato perolado, com capacidade de um almude, de 20 a 25 litros.
Em 1679 a qualidade de vinho e principalmente de aguardente que se enviava para Angola era tão ruim, causando até morte a quem bebesse dose maior, que acabou sendo proibida a sua importação! Como isso prejudicou o comércio com o interior, e Portugal não tinha quantidade para abastecer as necessidades locais, o negócio da escravaria... diminuiu! Só passados dez anos, e após os produtores brasileiros terem enviado amostras e se comprometido com a melhoria da qualidade é que essa proibição foi levantada!
O tempo rolou, os países evoluíram (?) mas a verdade é que 300 anos mais tarde, o Brasil repete o “envenenamento” alcoólico duns tantos angolanos, já depois de Angola se ter tornado independente. Desta vez não foi com aguardente, mas com vinho tinto! Uma espécie de zurrapa, de uva americana, embalada em garrafões e enviada em quantidades apreciáveis, virou problema político! Eu mesmo ainda tive a infelicidade de provar essa “novidade”, e bastaram dois copitos (é bom notar que estava com muita sede!) para passadas poucas horas correr para... com a diarréia a ameaçar-me!
Alguns africanos tinham por hábito, assim que conseguissem algum dinheiro, comprar um garrafão de vinho, e só, ou com algum companheiro, virar o garrafão para a goela e acabar com o líquido num abrir e fechar de olhos! Aconteceu que alguns depois não os abriram mais, e outros foram parar aos hospitais, com diarréias, intoxicações, etc. Resultado: nova proibição de importação de vinho do Brasil!
Felizmente este problema foi resolvido com muito mais celeridade do que nos idos do século XVII, e em cima de novos acordos comerciais deve ter sido aposto um novo kirimbu – sabia que carimbo nos vem de Angola, do kimbundu? – com o necessário OK.
A propósito, sabe de onde vem este OK? O que siginifica?
por Francisco G. de Amorim
16 jul. 09

3 de jul de 2009

Retificação ao texto
"Curiosidades das línguas de Angola"

Peço que me desculpem pelo erro de "palmatória" expresso no texto abaixo:

1.- O rei do Kongo não se chamava Muxicongo, mas Manikongo, nome que os portugueses e os missionários capuchinhos lhe deram, possivelmente derivado do kimbundu "muene" - senhor, excelência - chefe.
2.- Muxikongo eram as gentes do Kongo.
3.- Muxiluando, ou Axiluando (no singular), os da Ilha de Luanda.
Prometo que para a próxima tomo mais cuidado!

do Brasil, por Francisco G. de Amorim

3 jul. 09

2 de jul de 2009

A moeda que, desde tempos muito antigos, chegou até ao séc. XIX!
Mas... também com grandes desvalorizações!

Curiosidades das línguas de Angola

Primeiro esclarecimento: não filólogo, nem conhecedor das línguas nativas de Angola. Mas sempre me interessou muito qualquer assunto que diga respeito áquela terra, e também gosto de lançar para o ar – ZUKUMUNA – alguns problemas que, se discutidos por conhecedores, serão, de certeza, úteis para todos. Sobretudo para mim.
É por demasiado bem sabido que quando os portugueses chegaram onde é hoje Luanda, seja à baía, seja pelo sul, a única área habitada naquela região era a Ilha de Luanda. Além disso só lá para o Bengo, Barra do Quanza, etc. lugares onde havia água, e por óbvio, vida.
A Ilha de Luanda era “propriedade” do rei do Congo (ou Kongo!) de onde este tirava a principal fatia do seu poderio econômico, o “nzimbu”, apesar de a sua mbanza em Mbanza Kongo ficar a cerca de 500 kms. de distância, que naquela época se estimava em tempo de viagem, e que variava muito, conforme a carga que os carregadores tivessem que transportar na cabeça ou nas costas, ou a época do ano, quando por vezes os rios se enchiam e havia que se esperar que as frágeis pontes dessem passagem, etc., mas estava calculado que duraria uma média de 18 dias! Quando havia necessidade de mandar “telegrama urgente” o emissário podia levar somente uns 4 a 5!
Apesar disso a Ilha, a verdadeira “casa da moeda”, era muito bem guardada por pessoal da mais alta confiança do rei.
Ora bem, o rei do Kongo chamava-se Muxikongo.
E Luanda, ou Loanda? Segundo documentos dos primeiros europeus que por ali andaram, o significado desta palavra Loanda era “terra baixa”, ou “terra plana”.
E os habitantes da Ilha chamavam-se Muxi-luando!
Uma das primeiras deduções que se pode tirar destes nomes é que Luanda é um nome de origem Kicongo e não Kimbundo.
Há também referências à Ilha de Luanda como sendo Muzanga, ou Nzanga em kimbundo, ou Sanga em kicongo, mas este é um nome genérico para qualquer ilha.
Todo o restante da região no continente, onde hoje está a cidade de Luanda, chamava-se “Musseque” que significa areal.
À medida que a cidade se foi implantando em frente à Ilha, e não demorou para tomar o nome desta, Luanda, acrescido dos nomes da prática da devoção, São Paulo da Assumpção de Loanda, começou por ser somente São Paulo. Onde se faziam construções e ruas, a “cidade” ficou sempre sendo Luanda. Fora disso continuavam os “Musseques”, os areais! Musseque era o nome de uma das três “províncias” que no século XVI dividiam o reino Ngola: Ilamba, Musseque e Quissama, sendo Musseque a região do Dongo ou Ndongo, dos reis Ngola ou Njinga. O Musseque ou Dongo ocupava a região entre o rio Lucala a Norte, o Quanza a sul, a nascente o reino de Cassanje, pelo poente até ao mar, onde se formou Luanda, razão de se chamar Musseques à área fora da cidade. Até hoje!
Outra curiosidade é a origem da palavra Kimbundo, aliás da raiz Mbundu.
Reza a história que os povos conquistadores da região que hoje se define como sendo de língua kimbundu, ou ambundu, foi, pouco antes da chegada dos portugueses invadida e conquistada pelos “Jagas”, povo aguerrido e que dominava a metalurgia.
Para um povo simples e ainda em estado muito primitivo, tirar ferramentas de ferro dum pedaço de terra, era coisa de “grande feiticeiro”, e quem usava essas ferramentas, ou armas, tinha na mão o poder!
A exibição e o domínio dum "nganga", ou "kimbanda"

Normalmente esse poder acabou, ou começou, por ficar na mão desses ferreiros, cuja tecnologia, avançada para a época, era guardada em total segredo. Esses homens eram conhecidos como Ngongola ou “Ngola”.
Invadidas e conquistadas áreas em que a tecnologia não havia ainda chegado, logo aos invasores lhe chamaram os “Mbundu”, que os portugueses escreviam “Ambundu”.
O singular de mbundu é, então Kimbundu, e significa o “invasor”, ou o “grande que expulsa”. Ficou assim também até hoje! A parte central daquela região, foi dominada pelos Ngola, e o seu povo e língua conhecidos como Kimbundu.
Voltando à “casa da moeda”, e para se ter uma idéia do quanto os transportadores tinham de levar da Ilha de Luanda para o Muxicongo, basta saber que:
1 galinha valia 3.500 nzimbu = 1 pistole de nzimbu
1 vaca cerca de 300.000 nzimbu = 30 lufuzu
1 lufuku = 10.000 nzimbu
Em 1640 o rendimento dos impostos que recebia o Kongo andava por 1.750.000.000 zimbu, ou 175.000 lifuku! Haja carregadores!
Só mais uma coisa. É incerta a origem da palavra “bolo”, que em português todos sabem o que significa. Talvez venha do latim “bola”, pelo formato arredondado. Talvez. Mas só talvez!
No entanto, não só em kimbundu como em kicongo e em tchokwé, “Mbolo” significa pão! Se foram os portugueses que levaram esta palavra para Angola, porque não usaram logo pão? Ou não terá sido em sentido inverso que a palavra tenha entrado no nosso vocabulário?
Quanto mais controvérsia gerar estes assunto, melhor!
Salve! Uohoko!

2 jul. 09