26 de jul. de 2009

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O céu continua estrelado, mas a ordem e o progresso...

Infelizmente não há nada a fazer!
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O céu estrelado por sobre mim e a lei moral dentro de mim.

Immanuel Kant

Este país é agora adulado por dois extremistas fascistas, um de direita e outro de esquerda, qual deles o pior, e que o diabo escolha se for macho suficiente: um, ministro dos negócios estrangeiros de Israel, Avigdor Lieberman, racista e extremista, que vem pedir ao nosso big kxk que não dê muita ênfase à visita do presidente do Irão, Mahmud Ahmadinejad, extremista e racista - amigo dos peitos do Chavez -, que decidiu que a sua primeira visita, após tomar posse para o segundo mandato, seja ao Brasil, para, em primeiro lugar mostrar ao mundo que há um país importante que louva o resultado daquelas malditas eleições, e ao mesmo tempo pedir ajuda para ver se o Brasil também “malha” nos sionistas!
Não há melhor interlocutor para os receber e deixar que ambos chorem no seu ombro, do que o nosso big sheriff! Como jamais fez alguma coisa pelo país sendo seu máximo dirigente, nem reformas básicas, nem investimento em infra-estruturas, nada, e com o desastre que tem sido a atuação do nosso (deles!) ministério das relações exteriores, o resultado destas duas famosas visitas... vai ser zero.
Zero para eles e abaixo de zero para o Brasil. Uma beleza, ou uma vergonha, recebermos dois indivíduos que são, cada um no seu extremo, o oposto da democracia, dos direitos humanos, da dignidade? País nenhum os recebe, e eles vêm procurar apoio no Brasil!
Sérgio Vieira de Mello*, um dos grandes e esquecidos homens deste país, tristemente assassinado num ataque com carro bomba na loucura do Iraque, em Bagdá, onde estava como chefe da missão da ONU, disse um dia, numa aula no Instituto de Altos Estudos Internacionais da Universidade de Genebra:“...uma das dificuldades insolúveis mais antigas e mais profundas do pensamento e do comportamento humano é a tensão, a incompatibilidade, o choque entre a moral e a política”. E continua: “Que a política seja, por essência, distinta da moral, está mais do que claramente demonstrado pela existência da história. Mas essa incompatibilidade seria a confirmação cínica da inevitabilidade do mal, e do mal absoluto da história. Sem dúvida alguma, a escolha mais fácil, mas também a mais irresponsável, é aquela em que tudo, absolutamente tudo, pode ser rediscutido. Tal posição é manifestamente insustentável”.
Esta linha de pensamento define os grandes homens, talvez os homens normais. Estes não discutem nem ética nem moral. Elas são intrínsecas ao caráter do homem, com “H” maiúsculo, que o distingue das bestas, grandes ou menos grandes.
O espetáculo a que, cada vez mais profundamente estamos a assistir neste país, é de uma degradação impressionante. Não escapa governo, nem senado, nem câmaras, sejam elas de deputados federais, estaduais ou municipais, nem polícia, nem tribunais. Nada! Tudo se vende, tudo se compra, tudo se corrompe.
Imagino que quem aqui não viva possa fazer a pergunta: “Como é que o país sobrevive e ainda progride?” É que, apesar de tudo, são quase 200 milhões de habitantes que todos os dias têm que lutar para sobreviver, alguns para vencer, e por muito que o (des)governo se ausente e descomande, que o senado se corrompa até à vergonha absoluta, que os tribunais castiguem o ladrão de galinhas e deixem impunes os “colarinhos brancos”, aliás “colarinhos de ouro”, o país tem que crescer.
A leitura de qualquer jornal, diário, é pior do que tratamento de choque! Choque de pouca vergonha, de violência, de impunidade, e sobretudo o choque do descaramento com que tudo se embrulha e discute e rediscute, como se roubar aos bilhões os dinheiros públicos, corromper a todos os níveis, fosse coisa de somenos. Como disse Sérgio Vieira de Mello, isto é insustentável. Este grande brasileiro não viveu o suficiente para ver o seu país degradar-se moral e eticamente até ao mais baixo nível, o que lhe teria sido doloroso, como é para todos nós. Uma vergonha.
Vê-se o presidente defender com todos os meios - $$$ - de que dispõe, e parecem ser infindáveis, os agora seus correligionários que ainda há poucos anos eram os mais ferozes adversários políticos, que ele insultava em comícios chamando-lhes de ladrões! Mas hoje precisa deles na chamada “base” para sustentar a sua inépcia!
Um ex presidente da República, que consegue extorquir das formas mais absurdas verbas fabulosas para enriquecer mais ainda, a ele e a família! Que inclusive “esquece” de participar no seu imposto de renda mais uma “casinha” em Brasília avaliada em 5 milhões de reais!
Ver outro ex presidente que foi corrido por indecente e má figura, a quem o atual, na época, se atirou como hiena a carniça, ser tratado como grã-senhor, abraçando-se ambos com sorrisos de “velha e longa amizade”! Para “nós” – eles – os donos do poder, a sociedade dominante, tudo. Para o resto, o povo imbecil que vota sem ter a mínima noção do que está a preparar para si próprio, o desprezo, o cinismo, o abandono. Referindo uma vez mais Sérgio Vieira de Mello: “...como sociedades diferentes podem desenvolver tamanha desconsideração implacável pela vida humana!”
Perdeu-se totalmente o senso. Qualquer senso. Não há moral nem ética, muito menos vergonha.
A tal lei moral, de que fala Kant é ignorada. Só o céu continua estrelado! Porque os corruptos ainda não conseguiram apoderar-se dele!

* ler: "Sérgio Vieira de Mello – Pensamento e Memória”. Org. Jacques Marcovitch, EDUSP e Ed. Saraiva, 2004.
do Brasil, por Francisco G. de Amorim
26 jul. 09

23 de jul. de 2009

Os Humbi-Nhanhekas

Aspeto típico da região

Este texto é extraido de um email do meu querido amigo angolano, Manuel Ferreira Duarte de Sousa. Um homem que dedica grande parte da sua vida ao povo de Angola, em assistência social, médica. Um exemplo para todos e um estímulo a que sigamos os seus passos onde quer que nos encontremos nesta Terra.

Os Humbi-Nhanhekas, onde se dizem incluir Muilas (uns pronunciam Mumuilas) e os Mucubais, parentes próximos uns dos outros, ainda andam por ai de saúde e com suas cabeças de gado a pastar.
Ainda não ha muitos meses, eu próprio estive na região entre a Huila e o Cunene, na Cahama (onde houve grandes, violentos, destruidores e determinantes combates entre as tropas invasoras e ocupantes da África do Sul, Cubanos e Angolanos) e no Otchinjau (zona ocupada pelos invasores/ocupantes Sul-Africanos) e no Okavalalu (onde os Cubanos se concentraram antes da retirada para o Litoral e para Cuba), participando como voluntário pelo Rotary Club de Luanda e pelo Rotary International (do qual – do primeiro – sou atual Presidente desde 1 de Julho passado), e onde a luz ainda não chegou e as estradas são picadas precárias e cheias de pedregulhos e irregularidades, incirculáveis no tempo das chuvas, cuja correnteza as corta em diversos pontos), à imagem do que tenho feito no Kuando Kubango, Malange, Luanda, e outras, e ali ainda são vividos com grande pureza, os costumes e hábitos destes povos, cujos homens, sobretudo do Nhanhekas do Cunene, o cavalo ainda e um elemento fundamental na pastagem dos bovinos.
Felizmente saúde não lhes falta

A particularidade esquelética compleição física destes e evidentemente diferenciada de outros Povos Bantus, quiçá, por breves momentos e à medida que deles estamos próximos, que usualmente são de uma elegância e altura acima da média, tendo cabelo farto e até usando suíças, bigodes e até barbas bem postos e aparados (quase com um aspecto Europeu), nos fazem lembrar os Egípcios, assim como o seu gado, que é constituído por bois grandes e de largas e fartas hastes cornudas, que muito recorda em semelhança e aspecto, aqueles que são desenhados nos afrescos egípcios.

Habitação de uma família

Alem disso, são exímios cavaleiros, não usando aparelhos de montagem (sela), e simplesmente usando uma corda como arreio na cabeça do cavalo, que montam com uma destreza impressionante, podendo acertar num pequeno objeto no chão, com uma flecha e trotando em certa velocidade (dariam bons jogadores de polo, com certeza). Ainda levam um porrete e por vezes uma machadinha, arco e flechas, uma faca afiada (punhal tradicional tribal) com cabo de osso ou corno, muito semelhante aos usados pelos Kuanhamas, também do Cunene (região que vai de Xangongo, onde fica a Prisão do Peu-Peu e onde podem ser encontrados os Imbondeiros mais largos do Mundo, até a Ondjiva/Santa Clara, uma a Capital do Cunene e a outra perto na Fronteira – os Povos da Namíbia e de Angola são parentes, sobretudo neste ultimo caso, onde o relevante Rei Mandume, também é respeitado pelos restantes Povos Ovibambos do outro lado da fronteira -. O Primeiro Presidente da Namíbia, Sam Nujoma pertence à etnia Ovivambo também.)
Estes Nhanheka, usam simplesmente umas peles de bovino ou caprino, nas partes intermédias do corpo, usualmente andando de tronco nu, a não ser que esteja frio, altura em que usam casacos e anoraques normais, como toda a gente. As Mulheres usam lamas e esterco animal como cosmética e proteção do cabelo e da pele, em algumas circunstâncias, misturados com leite e com seivas de árvores e ervas, etc. Quase todas andam ainda com a parte do tronco desnudado e descalças ou com sandálias tradicionais feitas de coro bovino, usando um saiote no ventre, feito de peles de vaca ou boi. Usam ainda colares de contas de madeira, de capim seco trabalhado e miçangas. As Mucubais, na área desértica e semi-desértica do Namibe/Mocamedes, serram os dentes da frente em "v", para melhor trincar/trinchar os alimentos e usam espirais de latão/cobre à volta da parte baixa das pernas, junto ao tornozelo até à barriga das pernas. Este e um símbolo para Mulheres casadas e com filhos ou não. As Mucubais chegam a vir a Luanda, para comercializar um produto vegetal para o cabelo (diz-se que faz crescer e restabelece a saúde do cabelo) e para a pele, de cor preta e com um cheiro ativo, chamado Mupeque. Há quem o use misturado com bronzeador como proteção solar.
Ainda não ha muito tempo, elas circulavam pelas Ruas de Luanda, a quase mil km de onde usualmente vivem de forma tradicional, com os seios livres e à vista, tendo aos poucos, as autoridades forçado a que usem sutiã e panos para cobrir essa parte da nudez.
Olhem este "fofo" !

Vinham e continuam a vir à boleia em camiões, e costumam andar em grupos de duas a mais Mulheres, estando algumas já adaptadas às ruas de Luanda e à língua portuguesa corrente de Luanda.
Segundo dizem, estes Povos praticam o alongamento dos lábios vaginais e do clitóris, ao invés de o extorquirem/cortar, como acontece com outros Povos de Angola, para que as Mulheres possam ter maior prazer sexual, podendo estas Mulheres ainda, por costume, gozar de uma alargada liberdade sexual, podendo acasalar com outros parceiros, para além do Esposo, por vontade deste ultimo, que as pode oferecer a uma visita ou amigo, portanto, em sinal de cortesia, ou por vontade das próprias, quando fora do ambiente tribal e em circunstâncias deslocação. Aparentemente, não existe o conceito de traição marital (adultério) propriamente dito, havendo outras regras de conduta tradicionais, não querendo isto dizer também, que as Mulheres dessas Tribos sejam por completo permissivas e dadas a prazeres pelo simples toma lá da cá.
Quando os vi pela primeira vez em seus ambientes costumeiros e naturais, com suas casas cercadas de espinheiros e de algum do gado (eles não vivem em aglomerados ou aldeias), veio-me à mente, a grande expedição organizada pelo Grande Faraó Ramsés, enviada ao Coração e Oeste e Sul de África (Grandes Lagos), para essencialmente descobrir e explorar a Foz do Nilo, Rio que sempre foi a grande fonte da Vida no Egito e que ele achou conveniente dominar e conhecer melhor, talvez como medida de proteção e também de conhecimento, tendo essa expedição/exército, juntos com seus milhares de cabeças de gado/logistica, nunca mais regressado à base/origem, por diversos fatores adversos, segundo se conta, uns por ataques/emboscadas/confrontos com tribos estranhas ao longo do caminho, por perca de direção/desorientação/revolta, ou simplesmente, por desistência/deserção/dispersão, etc, suspeitando-se que muitos dos elementos, ou de forma organizada ou desorganizada, fixaram-se em lugares de grande fertilidade ou em novas zonas ainda desconhecidas para os Egípcios e para outros Povos (bantus) de Africa).
Cada Pai ou Chefe de Família, tem as suas paliçadas de espinheiras para o gado vário, constituido de bois, burros, carneiros, cavalos, e outras para os cereais (Massango, massambala e variavelmente, algum milho, que constituem sua alimentação base na forma de farinha misturada com leite azedado/chocalhado numa cabaça, alimento muito forte e que tem que se ter um estomago habituado, porque pode causar lesões estomacais, por dificuldade de digestão, para quem e de fora daquele ambiente e hábito.) e aquelas onde ficam a casa principal e alguns silos e capoeiras, no centro de tudo isso.
As restantes casas e cercas dos filhos ou parentes, ficam habitualmente num raio de 1km de distancia em redor do habitat do Pai ou Chefe Familiar, e equidistantes uns dos outros, formando núcleos familiares discretos (filhos, Pais e Irmãos). Outros Grupos Familiares de irmãos dos Pais, ficam invariavelmente um pouco mais distantes, agrupando os filhos respectivos nas cercanias, mas mantendo sempre a distância adequada, supostamente, para que cada elemento possa ter espaço suficiente para que seu gado individual paste em liberdade (e muitas vezes sem a presença do pastor) sem interferências de gados alheios.
É interessante ver logo pela manhã e a meio da manhã, e um pouco depois, lá mais para à tarde, bois, cavalos, burros, carneiros e ovelhas, irem isolados ou em pequenos grupos, diretos aos poços/bebedouros (que até não existem muitos, por ser esta uma região meia seca e Arida, com arvores de médio porte e espinheiras por todo o lado, lembrando muito o Alentejo e certas Regiões da Califórnia), onde à vez e em ordem, cheios de paciência, vão bebendo civicamente à medida que chega o seu turno para beber. Assim que bebem, lá vão eles de volta aos seus locais de origem, para mais tarde, irem por si, ou por condução/indução de pastores, de volta à recolha e à salvaguarda de seus estábulos improvisados nas cercas de espinheiras respectivas. Muito difícil será de alguém se apropriar, desta forma, do gado alheio, pois, por instinto ou por algum senso consciente de orientação, todos os animais, a não ser por engano, ou por serem novos, regressam/recolhem-se à tardinha aos seus respectivos proprietários/cercas. Quando se vê a ordem com que esperam a vez para beberem, e com a variedade de animais que se aglomeram na espera, até relembra uma espécie de reunião de animais para a Arca de Noé, onde não são muito comuns incidentes ou a empurra-empurra da impaciência, que se vê usualmente nas concentrações de seres Humanos, ou nos cruzamentos não sinalizados ou em engarrafamentos de transito automóvel, futebol, etc.
Espero ter conseguido aqui em uma duzia de palavras, sido capaz de traduzir um pouco da imagem ainda atual dos Povos de Angola, sobretudo, dos aparentados ao Grupo Étnico dos Himbas, da Namíbia.

Fotos de Francisco Giner Abati, antropólogo e profesor de la Universidad de Salamanca

16 de jul. de 2009

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Era o vinho, meu bem...

Não era destas uvas que se fazia o vinho para Angola !


Desde os primórdios da expansão portuguesa, e de outros países, pelo mundo, depois do sucesso das especiarias do Oriente e do ouro e preciosidades saqueadas pelos espanhóis aos astecas, mayas, incas e outros, o grande “negócio internacional” acabou por se fixar no tráfico de escravos, onde o Brasil teve um papel importante. E importante sob diversos aspetos:
- primeiro porque precisava de mão obra, que nem Portugal tinha nem os indígenas proviam;
- depois pelo lucro do tráfico entre os diversos portos de África e outros tantos espalhados pelas Américas do Sul, Centro e Caribe, indo até a Argentina;
- e como centro de produção de alimentos, tal ainda hoje é, e mais ainda será em futuro breve, enviou para Angola imensos produtos que por África se foram difundindo, sobretudo a mandioca, o milho, o amendoim, a cana de açúcar, e outros, que rapidamente alteraram os hábitos alimentícios de muitas populações africanas, conseguindo melhorar a sua saúde e resistência. O número de habitantes cresceu sensivelmente em função da melhoria da alimentação.
Curioso notar que já no século XVII os principais “exportadores” de escravos de Luanda eram mestiços brasileiros, como o foram mais tarde em outras regiões de África.
Do Brasil ia muita “farinha de guerra”, a farinha de mandioca que era distribuída aos soldados que marchavam para o interior, onde lutavam com extrema dificuldade de abastecimento, contra os nativos e contra as doenças. Em quase todas as batalhas travadas nesse século, a morte de soldados portugueses (e muitos italianos à mistura) era enorme, quando não ficavam todos dizimados!
Outro produto de muito interesse era a aguardente de cana, a nossa pinga, não só para presentear os sobas com quem se pretendia pumbar – negociar – mas sobretudo para servir de boa moeda de troca por escravos, alguma cera e marfim.
Tanto o vinho como a aguardente eram transportados em peroleiras, vasilhas de barro de formato perolado, com capacidade de um almude, de 20 a 25 litros.
Em 1679 a qualidade de vinho e principalmente de aguardente que se enviava para Angola era tão ruim, causando até morte a quem bebesse dose maior, que acabou sendo proibida a sua importação! Como isso prejudicou o comércio com o interior, e Portugal não tinha quantidade para abastecer as necessidades locais, o negócio da escravaria... diminuiu! Só passados dez anos, e após os produtores brasileiros terem enviado amostras e se comprometido com a melhoria da qualidade é que essa proibição foi levantada!
O tempo rolou, os países evoluíram (?) mas a verdade é que 300 anos mais tarde, o Brasil repete o “envenenamento” alcoólico duns tantos angolanos, já depois de Angola se ter tornado independente. Desta vez não foi com aguardente, mas com vinho tinto! Uma espécie de zurrapa, de uva americana, embalada em garrafões e enviada em quantidades apreciáveis, virou problema político! Eu mesmo ainda tive a infelicidade de provar essa “novidade”, e bastaram dois copitos (é bom notar que estava com muita sede!) para passadas poucas horas correr para... com a diarréia a ameaçar-me!
Alguns africanos tinham por hábito, assim que conseguissem algum dinheiro, comprar um garrafão de vinho, e só, ou com algum companheiro, virar o garrafão para a goela e acabar com o líquido num abrir e fechar de olhos! Aconteceu que alguns depois não os abriram mais, e outros foram parar aos hospitais, com diarréias, intoxicações, etc. Resultado: nova proibição de importação de vinho do Brasil!
Felizmente este problema foi resolvido com muito mais celeridade do que nos idos do século XVII, e em cima de novos acordos comerciais deve ter sido aposto um novo kirimbu – sabia que carimbo nos vem de Angola, do kimbundu? – com o necessário OK.
A propósito, sabe de onde vem este OK? O que siginifica?
por Francisco G. de Amorim
16 jul. 09

3 de jul. de 2009

Retificação ao texto
"Curiosidades das línguas de Angola"

Peço que me desculpem pelo erro de "palmatória" expresso no texto abaixo:

1.- O rei do Kongo não se chamava Muxicongo, mas Manikongo, nome que os portugueses e os missionários capuchinhos lhe deram, possivelmente derivado do kimbundu "muene" - senhor, excelência - chefe.
2.- Muxikongo eram as gentes do Kongo.
3.- Muxiluando, ou Axiluando (no singular), os da Ilha de Luanda.
Prometo que para a próxima tomo mais cuidado!

do Brasil, por Francisco G. de Amorim

3 jul. 09

2 de jul. de 2009

A moeda que, desde tempos muito antigos, chegou até ao séc. XIX!
Mas... também com grandes desvalorizações!

Curiosidades das línguas de Angola

Primeiro esclarecimento: não filólogo, nem conhecedor das línguas nativas de Angola. Mas sempre me interessou muito qualquer assunto que diga respeito áquela terra, e também gosto de lançar para o ar – ZUKUMUNA – alguns problemas que, se discutidos por conhecedores, serão, de certeza, úteis para todos. Sobretudo para mim.
É por demasiado bem sabido que quando os portugueses chegaram onde é hoje Luanda, seja à baía, seja pelo sul, a única área habitada naquela região era a Ilha de Luanda. Além disso só lá para o Bengo, Barra do Quanza, etc. lugares onde havia água, e por óbvio, vida.
A Ilha de Luanda era “propriedade” do rei do Congo (ou Kongo!) de onde este tirava a principal fatia do seu poderio econômico, o “nzimbu”, apesar de a sua mbanza em Mbanza Kongo ficar a cerca de 500 kms. de distância, que naquela época se estimava em tempo de viagem, e que variava muito, conforme a carga que os carregadores tivessem que transportar na cabeça ou nas costas, ou a época do ano, quando por vezes os rios se enchiam e havia que se esperar que as frágeis pontes dessem passagem, etc., mas estava calculado que duraria uma média de 18 dias! Quando havia necessidade de mandar “telegrama urgente” o emissário podia levar somente uns 4 a 5!
Apesar disso a Ilha, a verdadeira “casa da moeda”, era muito bem guardada por pessoal da mais alta confiança do rei.
Ora bem, o rei do Kongo chamava-se Muxikongo.
E Luanda, ou Loanda? Segundo documentos dos primeiros europeus que por ali andaram, o significado desta palavra Loanda era “terra baixa”, ou “terra plana”.
E os habitantes da Ilha chamavam-se Muxi-luando!
Uma das primeiras deduções que se pode tirar destes nomes é que Luanda é um nome de origem Kicongo e não Kimbundo.
Há também referências à Ilha de Luanda como sendo Muzanga, ou Nzanga em kimbundo, ou Sanga em kicongo, mas este é um nome genérico para qualquer ilha.
Todo o restante da região no continente, onde hoje está a cidade de Luanda, chamava-se “Musseque” que significa areal.
À medida que a cidade se foi implantando em frente à Ilha, e não demorou para tomar o nome desta, Luanda, acrescido dos nomes da prática da devoção, São Paulo da Assumpção de Loanda, começou por ser somente São Paulo. Onde se faziam construções e ruas, a “cidade” ficou sempre sendo Luanda. Fora disso continuavam os “Musseques”, os areais! Musseque era o nome de uma das três “províncias” que no século XVI dividiam o reino Ngola: Ilamba, Musseque e Quissama, sendo Musseque a região do Dongo ou Ndongo, dos reis Ngola ou Njinga. O Musseque ou Dongo ocupava a região entre o rio Lucala a Norte, o Quanza a sul, a nascente o reino de Cassanje, pelo poente até ao mar, onde se formou Luanda, razão de se chamar Musseques à área fora da cidade. Até hoje!
Outra curiosidade é a origem da palavra Kimbundo, aliás da raiz Mbundu.
Reza a história que os povos conquistadores da região que hoje se define como sendo de língua kimbundu, ou ambundu, foi, pouco antes da chegada dos portugueses invadida e conquistada pelos “Jagas”, povo aguerrido e que dominava a metalurgia.
Para um povo simples e ainda em estado muito primitivo, tirar ferramentas de ferro dum pedaço de terra, era coisa de “grande feiticeiro”, e quem usava essas ferramentas, ou armas, tinha na mão o poder!
A exibição e o domínio dum "nganga", ou "kimbanda"

Normalmente esse poder acabou, ou começou, por ficar na mão desses ferreiros, cuja tecnologia, avançada para a época, era guardada em total segredo. Esses homens eram conhecidos como Ngongola ou “Ngola”.
Invadidas e conquistadas áreas em que a tecnologia não havia ainda chegado, logo aos invasores lhe chamaram os “Mbundu”, que os portugueses escreviam “Ambundu”.
O singular de mbundu é, então Kimbundu, e significa o “invasor”, ou o “grande que expulsa”. Ficou assim também até hoje! A parte central daquela região, foi dominada pelos Ngola, e o seu povo e língua conhecidos como Kimbundu.
Voltando à “casa da moeda”, e para se ter uma idéia do quanto os transportadores tinham de levar da Ilha de Luanda para o Muxicongo, basta saber que:
1 galinha valia 3.500 nzimbu = 1 pistole de nzimbu
1 vaca cerca de 300.000 nzimbu = 30 lufuzu
1 lufuku = 10.000 nzimbu
Em 1640 o rendimento dos impostos que recebia o Kongo andava por 1.750.000.000 zimbu, ou 175.000 lifuku! Haja carregadores!
Só mais uma coisa. É incerta a origem da palavra “bolo”, que em português todos sabem o que significa. Talvez venha do latim “bola”, pelo formato arredondado. Talvez. Mas só talvez!
No entanto, não só em kimbundu como em kicongo e em tchokwé, “Mbolo” significa pão! Se foram os portugueses que levaram esta palavra para Angola, porque não usaram logo pão? Ou não terá sido em sentido inverso que a palavra tenha entrado no nosso vocabulário?
Quanto mais controvérsia gerar estes assunto, melhor!
Salve! Uohoko!

2 jul. 09

23 de jun. de 2009



Dois textos publicados no último domingo no jornal "O Globo", por dois dos mais conceituados jornalistas e escritores.A eles cabe fazer o que eu já cansei: apontar, com saber e graça, as desgraças que a o Brasil está sujeito.
Devo ainda afirmar que o tal doutor Amorim, não é da minha família, nunca foi nem há-de ser, membro de extrema esquerda do (quase) falecido partido tratskista, ainda em pleno fulgor neste país.


A diplomacia kung-fu
do doutor Amorim
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"Retrato" pelo caricaturista Cruz, do famigerado dr. Amorim
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ELIO GASPARI
Emoldurado pelo luxo asiático-stalinista do pa­lácio do presidente Nursultan Nazarbayev, no Cazaquistão, o chanceler Celso Amorim fez a defesa do quê seria a política "realista" de Nosso Guia em defesa dos direitos humanos dos ou­tros: "É uma questão de concepção. Tem gente que quer (...) ficar em paz com sua consciência e purgar os pecados 4o colonialismo".
O doutor Amorim cortejou o ditador do Zimbabue, agradou ao soba do Sudão, recebeu o chanceler da Co­reia do Norte e, num lance de audácia, convidou o pre­sidente do Uzbequistâo para dar um pulinho a Brasília.
Pode-se fazer de conta que Amorim não sabe quem é o presidente Nazarbayev, do Cazaquistão. Ele está no poder desde a, época da, falecida Untáo Soviética, com direito a quantas ree­leições quiser.
Como não há oposição no seu reino, em 2006 ele foi a Wattínaton para dar queixa de Borat ao presidente George Bush. Estima-se que sua fortuna chegue a US$ l bilhão. Prova não há, por­que ele é homem cuidado­so. Durante uma visita do secretário de Estado ameri­cano, agendou uma impor­tante conversa para a saúna (leia-se: só eu gravo).
Nazarbayev é um santo se comparado com outro convidado de Nosso Guia e de Amorim. Islam Karlmov, presidente do Uzbe­quistâo, esteve em Brasília em maio passado. Ele também está no poder desde o tempo da falecida União Soviética. Como os demais tiranos, massacra a oposição e rouba o que pode, mas Karimov conquistou um lugar na galeria das atrocidades:
Em pelo menos um caso, sua polícia ferveu um opositor. Ferveu, não confundir com jogar na água fervendo. Quem diz isso é um laudo de patologistas da Universidade de Glasgow.
Karimov só não se tornou um tirano do tipo Geni porque mereceu a proteção dos Estados Unidos, a quem quase certamente agradou hospedando uma central secreta de torturas da CIA. Isso e mais as fa­cilidades que concede a empresas mineradoras ame­ricanas. Sua filha está com a prisão preventiva decreta­da nos Estados Unidos por roubalheiras. George Bush não teve peito de convidar o companheiro Karimov pa­ra visitar Washington.
Quando, no Brasil, pendu­ravam-se no pau de arara ad­versários da ditadura (inclu­sive um irmão de Nosso Guia), o secretário de Estado Henry Kissinger patrocinava uma política de simpatia "realista" com Brasília. Anos depois, Jimmy Cárter assu­miu a Presidência dos Esta­dos Unidos e pressionou Pindorama. À época, os hierarcas do Itamaraty diziam que sua iniciativa era colonialis­ta e continuavam negando passaportes para exilados.
ELIO GASPARI é jornalista


Sangue novo na imprensa


A nova esperança das letras brasilienses


JOÃO UBALDO RIBEIRO
Sou do tempo em que se falava na "imprensa escrita, falada e televisionada" e, para ser sincero, implico com a palavra ''mídia", embora saiba que não adian­ta. Mas é que essa palavra entrou em meu vocabulário através do inglês, onde ela ainda é como em latim: sin­gular "médium", plural "media". En­tre nós, ganhou um acento e virou coletivo. Não tenho nenhum argumento realmente defensável contra esse fa­to, é a velha rabugice mesmo; acho que com a idade ela vai piorando. Mas deve haver algum dispositivo no Estatuto do Idoso que me dê direito a isto, de forma que apenas aviso que, quando escrevo sobre imprensa, penso na escrita, na falada e na tetevisionada.
A semana que passou touxe novidades para a imprensa. Não me refiro à extinção da exigência de di­ploma para o exercício da profis­são de jornalista, até porque acho que nada vai mudar muito. A im­prensa certamente procurará con­tratar profissionais de áreas diver­sas da comunicação para atender a algumas necessidades, notadamente de jornalismo analítico e especializado, mas deverá continuar a dar preferência genérica a profissionais formalmente habilitados, e um diploma de jornalista ainda pesará no currículo.
Grande novidade mesmo foi o anúncio de que o presidente terá uma coluna nos jornais. Ainda não sei direito como é que vai ser, mas fico maravilhado mais uma vez. Aqui acontece de tudo, até mesmo um jornalista militante que, segun­do ele mesmo nunca leu um jornal e sabe apenas que é um papel dobrado, que solta tinta e estaria me­lhor embrulhando peixe ou recicla­do como papel higiénico. Eu ia mencionando também a necessida­de de saber escrever, mas me lem­brei de um ou dois coléguinhas no passado e manda a honestidade re­conhecer que, em certos casos, sa­ber escrever não tem a menor im­portância. Além disso, os presiden­tes costumam contar com auxiliares que escrevem para eles, é uma prática universal.
Está certo, mas fico pensando como, se a notícia sobre a coluna for verdadeira, estamos mais uma vez conseguindo feitos sem prece­dentes. Leremos nos jornais a colu­na de alguém que não sabe redigir e que nunca lerá o que escreveram por ele, Que é que é para fazer — fingir que é ele quem escreve e que ele sabe do que se trata? Deve ser. Por outro lado, considerando a inescapável função crítica da boa imprensa, ele vai criticar quem? Assim como a imprensa costuma vigiar e criticar os governantes, tal­vez ele critique os governados, quem sabe. Talvez a coluna pegue um nome como "Pito à Nação", ou coisa assim. Creio que estamos até precisando, embora talvez não do teor que ele pensa.
Como daqui a pouco não haverá mais países para ele visitar e assim evitar trabalhar onde devia, imagi­no que apenas a coluna e o progra­ma de rádio que ele já tem não se­rão suficientes para distraí-lo. Cla­ro, resta a televisâo e não há por que rejeitar a ideia de um Domingão do Lulão apresentado por ele, com quadros como "Topa Tudo por um Cargo'*, "Você Leva e Eu Não Vejo", "Se Faça sem Fotça", "A Maracutaia da Semana" e outros, em que serão sorteadas bolsas, cestas bá­sicas, sineçuras na Petróbras e si­milares.
O novo colega, também se co­menta muito, virá junto com um pretendido enfraquecimento da imprensa, através principalmente da, manipulação da distribuição de no­tícias e respostas a perguntas de repórteres ou noticiaristas. De no­vo, não sei bem o que se pretende, mas, já que a imprensa é responsá­vel por tudo o que de mau aconte­ce, da ladroagem geral ao trata­mento imoral da coisa pública, ca­la-se a Imprensa e os problemas na­cionais acabam.
Bem, isso tudo seria engraçado e poderia gerar piadinhas infinita­mente, mas o fato é que não é en­graçado e não se pode tratar o cer­ceamento da liberdade de impren­sa como leviandade; Hoje, num país em crise ética e moral sem prece­dentes, onde a sensação que se tem, diante do aluvião avassalador de escândalos e ladroagem impu­nes, é que isto aqui virou um carnaval ensandecido de larápios, vi­garistas e aproveitadores por tudo quanto é canto, a imprensa, com todos os seus defeitos, permanece o Qnico "poder" realmente demo­crático, em contraste com a situa­ção a que chegaram os poderes ofi­cialmente constituídos. Ao contrá­rio deles, a imprensa está sujeita à permanente fiscalização e ao julga­mento, frequentemente severo, de seu público. Deve — e presta — sa­tisfação a seus leitores, ouvintes e espectadores. Não pode se lixar pa­ra a opinião de seu público e, se um órgão de imprensa trai seu público, a sanção, em forma de queda talvez fatal na circulação ou credibilida­de, é pesada e inevitável, novamen­te ao contrário do que ocorre na es­fera oficial. •
E esse tiro, que talvez pareça fá­cil, mas não é, pode sair pela cula­tra, mesmo que de início bem sucedido. Vai ver, os interessados acham que a imprensa é parecida com eles. Não é. O que vai aconte­cer com a imprensa, se privada das fontes oficiais, é que ela irá buscar a informação onde quer que esta puder ser obtida. Multiplicar-se-ão, inevitavelmente, vazamentos de informação, e as consequên­cias, para quem queria estancar as denúncias; poderão ser opostas, ou seja uma chuva de escândalos ainda mais estonteante.
O problema, naturalmente, não é nem nunca foi a imprensa, nem existe o tal denuncismo de que o presidente falou. O que existe é sa­fadeza mesmo em todos os setores do governo e do Estado e aqueles que sabem um pouquinho do que se passa em torno não aguentam mais ter sua inteligência e seus va­lores insultados, geralmente de for­ma grosseira e cínica. Mas talvez o novo coleguinha resolva o proble­ma. Antigamente se ensinava que a notícia bem feita diz na abertura o quê, quem, quando e como. Ele bem que podia fazer isso na primei­ra coluna dele, ia ficar com assunto para muito tempo.
JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.

19 de jun. de 2009

O inimigo não faria melhor
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Só pode o ilegal

CARLOS ALBERTO SARDENBERG
Deu nos jornais: a usina hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira, pode ficar sem li­cença ambiental; aumentou no Brasil a quantidade de energia ge­rada por usinas movidas a carvão e diesel, poluidoras; há 2.100 quilóme­tros de rodovias no país com obras paradas por falta de licença ambien­tal; o desmatamento da Mata Atlân­tica segue no ritmo de 34 mil hecta­res/ano, no período 2000-08.
Eis uma pequena amostra do que ocorre no Brasil: projetos formais, de­senvolvidos à luz do dia, dentro da lei, param na legislação ambiental e nos órgãos encarregados de aplicá-la; já es­ses mesmos órgãos são incapazes de barrar o desmatamento ilegal e as emissões ilegais de carbono.
É claro: é mais fácil ficar nos gabi­netes de Brasília analisando projetos no computador do que entrar nos confins da Amazónia. Mas entrar mesmo, colocando pessoal do Ibama e da Polícia Federal em ação perma­nente e não em operações isoladas para marketing.
É evidente que está errado. A come­çar pela legislação. Estão em vigor no Brasil nada menos que 16 mil normas ambientais. O Código Florestal é de 1965, desatualizado, claro. Mas a pro­posta de reforma dorme no Congresso há dez anos, tendo a companhia, no momento, de outros 130 projetos de lei tratando do mesmo assunto. E mais um: a Frente Parlamentar Agropecuária está apresentando um projeto abrangente para substituir tudo por um novo Código Ambiental.
Não é de estranhar que cresçam as disputas internas no governo Lula. O pessoal do Dnit, órgão do Ministério dos Transportes encarregado das ro­dovias, diz que o Ibama atrasa as licenças; o Ibama diz que os projetos do Dnit estão errados ou nem foram apresentados, mas reconhece que faltam funcionários para dar conta da quantidade de processos.
O ministro Minc, do Meio Ambien­te, está em disputa aberta com o mi­nistro Stephanes, da Agricultura. O resultado é desalentador. As disputas revelam uma falta de orientação que começa no governo. O presi­dente Lula coloca no ministério um ambientalista e um representante do agro-negócio — e que se virem. Pede as es­tradas do PAC ao ministro dos Trans­portes e dá força ao Ibama. Ou seja, re­força a confusão, inclusive, quando re­clama pubicamente do Ibama e não faz nada para mudar o sistema.
E, se o governo não tem uma orien­tação, como poderia organizar o de­bate no Congresso e na sociedade?
Além disso, o governo, que adota uma legislação interna tão rigorosa quanto complexa, no quadro interna­cional se recusa a adotar metas de re­dução de emissão de carbono, afir­mando que esse é um problema dos ri­cos, pela poluição que causaram. E as­sim fica o Brasil ao lado da China, a grande poluidora, que sustenta a mes­ma tese (e que é bem capaz de estar produzindo e exportando móveis com madeira ilegal tirada da Amazónia).
A desorientação geral e mais a complexidade da legislação e a buro­cracia infernal dos procedimentos criam disputas infindáveis e abrem espaço para negociações na versão do puro quebra-galho.
Tome-se um dos problemas da usi­na de Jirau. O governador de Rondônia, Ivo Cassol, se recusa a dar a li­cença, necessária porque a obra atin­ge parques estaduais. Mas ele topa conceder a licença se o Mine desistir da retirada de cinco mil famílias que ocuparam uma reserva federal no es­tado e a estão desmaiando. (O que, aliás, demonstra que pequenos agri­cultores, assentados da reforma agrária e invasores desmatam e po­luem,, ao contrário do que dizem os amblentalistas que põem toda a cul­pa no "grande agronegócio".)
Mas reparem no caso de Rondônia: se a usina de fato causa prejuí­zo aos parques estaduais, então não há o que negociar. Igualmente, se as famílias estão de fato desmatando a reserva federal, também não há o que negociar.
Entretanto, rola a negociação por­que essas legislações complexas per­mitem qualquer interpretação, tudo dependendo de força política.
Resumo da ópera: país com enor­mes carências de infraestrutura, o Brasil conseguiu bolar um jeito de paralisar estradas, portos, usinas limpas, aeroportos, ferrovias e fábri­cas diversas, enquanto deixa rolar o desmatamento ilegal e a emissão de carbono,
O inimigo não faria melhor.
CARLOS ALBERTO SARDENBERG é jornalista.

sardenberg@cbn.com.br
Quinta-feira, 28 de maio de 2009, in “O Globo”


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CORA RONAI – escritora e jornalista
Nunca antes na História deste país se viu tanta roubalheira e tanto descaramento num endereço só. O Seriado está abusando da paciência dos brasileiros e o pior é que, pelo quê se vê, pode abusar à vontade. O máximo que acontece a senador pego em flagrante é ter de devolver o produto do roubo — como se, com isso, ficasse tudo bem. E fica, não fica? Os princípios básicos da moral e da Justiça não valem no Congresso Nacional, onde a imunidade lamentar, instituída com o nobre intuito de defender a democracia, virou uma excrescência insólita que apenas garante a impunidade criminosos.
É assustador (e nojento) perceber que, no Congresso Nacional, exibe-se hoje o que o se tem de pior, a começar pelo coronel José Sarney nos tomando a todos por otários. Tem razão, porque aqui estamos, otários que somos, pagando os impostos mais pesa­dos do mundo para que nada jamais falte às excelências, suas famílias e agregados. Ele tem razão também quando diz que a atual crise não é sua, mas do Senado. Num senado decente, ninguém lhe daria bom dia, e os demais senadores teriam vergonha de serem vistos sua companhia. Pois lá não só o elegem presidente da casa, como fazem questão de abraçá-to depois de um discurso sem vergonha como aquele de terça-feira.
Está ficando muito cansativo falar sobre a bandalheira, ler sobre à roubalheira, escrever sobre a roubalheira. Um escândalo é sepultado por outro que é enterrado por um terceiro e assim sucessivamente. As manchetes de hoje são iguais às do mês passado e serão iguais no mês que vem, nem os personagens mudam. A crónica que foi escrita no começo do ano e do milénio poderia ser republicada após ano, ano após ano, ano após ano...
Os safados estão conseguindo nos vencer pelo tédio.


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Como todos os brasileiros que estão acompanhando as eleições irânianas, eu também tive vontade de me enfiar debaixo sofá de pura vergonha, ao ouvir Lula dar apoio incondicional ao presidente golpista Ahmadlnejad. Sé, como o coronel Sarney, Lula também acha que tudo que o contraria é intriga da imprensa, que pelo menos circule pelo Twltter antes de dizer a primeira coisa que lhe vem à cabeça.
A luta dos iranianos na internet tem sido comovente. Com quase todas as comunica­ções bloqueadas no país, eles têm usado as redes sociais, que estão fora do alcance das garras dos aiatolás, para contar ao mundo que está acontecendo lá. Notícias não param de chegar ao Twitter, que até cancelou uma parada de manutenção na madrugada de terça; e Facebook e Flickr têm recebido incontáveis fotos das manifestações, que blogueiros fora do Irã se encarregam de espalhar.

Cora Ronai é escritora e jornalista.
www.cora.blogspot.com
cora@oglobo.com.br

em “O Globo”, 18 jun 09

19 jun 09