15 de abr. de 2010


Pérolas do Banco do Brasil



O Banco do Brasil possui um departamento chamado "Carteira de Crédito Agrícola"; uma de suas responsabilidades é fiscalizar a utilização dos empréstimos. Esta fiscalização é feita por funcionários do banco, que visitam as propriedades e fazem relatórios técnicos da situação encontrada. Abaixo, alguns trechos destes "relatórios, transcritos exatamente conforme os originais":



* Visitamos o açude nos fundos da fazenda e depois de longos e demorados estudos constatamos que o mesmo estava vazio.



* Era uma ribanceira tão ribanceada que se estivesse chovendo e eu andasse a cavalo e o cavalo escorregasse, adeus fiscal.



* Na minha opinião, acho bom o banco suspender o negócio do cliente para não ter aborrecimentos futuros.

* O sol castigou o mandiocal. Se não fosse esse gigante astro, as safras seriam de acordo com as chuvas que não vieram.

* "Cobra" - Comunico que faltei ao expediente do dia 14 em virtude de ter sido mordido pela peçonhenta epigrafada.



* Os anexos seguem em separado.

* Se não fosse o sol, tudo indicava que a chuva aumentasse a safra.



* Cliente aguarda a capilaridade pluviométrica da zona para plantar a mandioca em local mais macio e úmido.

* A casa de farinha nunca foi para a frente porque o mutuário que fez o empréstimo deu para trás e nunca mais se levantou.

* Fui atendido na fazenda pela mulher do mutuário. Segundo fiquei sabendo, ninguém quer comprá-la e sim explorá-la.

* Imóvel de difícil acesso. O mato tomou conta de tudo, deixando passagem só para animal rasteiro. Próxima vistoria deve ser feita por fiscal baixinho.

* A máquina elétrica financiada é toda manual e velha. Fazendeiro financiou a máquina elétrica mas fez todo o trabalho braçalmente e animalmente.

* Gado está gordo e forte, mas não é financiado e sim emprestado somente para fins de vistoria. O filho do fazendeiro está passando férias na Disney.

* Trajeto feito a pé porque não havia animal por perto, só o burro do fazendeiro. Despesa de locomoção grátis.



* Contrato permanece na mesma situação da vistoria anterior, isto é, faltando fazer as cercas que não ficaram prontas.

* Mutuário adquiriu aparelhagem para inseminação artificial mas um dos touros holandeses morreu. Sugerimos treinamento de uma pessoa para tal função.



* Tempo castigou a região. O sol acabou com a farinha e a chuva com o feijão.



* As garantias permanecem em perfeito estado de abandono. Cliente vive devidamente bêbado e devendo aos bares , a Deus e ao mundo.



* A euforbiácea foi substituída pela musácea sem o consentimento e autorização de nosso querido banco.

15.abr.10

13 de abr. de 2010


O RETORNO DE DEUS



No pequeno lugar ao sul de Inglaterra, Clayton, numa simpática e simples “cottage”, casa típica das áreas rurais inglesas, Peter vivia com sua família, mulher e um casal de filhos na faixa dos 10 a 12 anos. Todas as manhãs saía de casa, andava cerca de quinze minutos até à estação de Hassocks para apanhar o trem para Londres onde trabalhava há mais de dez anos na mesma empresa.
Homem traquilo, decidido e enérgico profissional, bom chefe de família, tinha, aparentemente, tudo para estar de bem com a vida. Aos domingos acompanhava a família ao serviço religioso, e sempre de lá saía cumprimentando os vizinhos, amigos e o pastor, mas com a estranha sensação de ter simplesmente perdido tempo.
O ambiente da igreja e os sermões do pastor, não lhe diziam nada, mesmo procurando estar atento, e isso acabou por se tornar para ele uma preocupação.
Num desses domingos, um lindissimo dia de primavera, primavera com aquelas cores que só a Europa do Norte tem, nem um único fiapo de nuvem nos céus. Sentado numa cadeira de jardim, Peter contemplava aquelas terras verdes e bonitas que se estendiam para alem do limite do seu terreno. Eram dum agricultor que parecia estar a desistir da sua milenar profissão por não poder competir com os grandes produtores, e até abandonara um equipamento agrícola que jazia a uns duzentos metros de sua casa. Ia ganhando ferrugem, entristecia um pouco aquele ambiente de calma e paz, e nada tinha já que se aproveitasse.
Peter deixava o seu pensamento correr ao sabor daquela tranqüilidade, e teve então um quase sobressalto que de há muito mexia com a sua cabeça: “Se Deus existe, porque será que eu nunca me apercebi da Sua existência! Quanto gostaria de ter um sinal, qualquer que fosse!”
Naquele instante, do limpissimo céu claro, caiu um raio e um trovão com um poder imenso. Peter na sua semi sonolência não esperava tamanho estrondo e quase caiu da cadeira! Olhou em frente e viu que o raio atingira exatamente aquela maquina abandonada e que a fizera em frangalhos. E o céu não escureceu, nem qualquer outra nuvem se formou!
Peter temeu! Seria este o sinal que ele esperava que o tal Deus lhe mandasse? A verdade é que não havia nos ares a menor condição de formação de trovoada, e o trovão deu-se assim que ele “pedira” um sinal. Ficou abalado. Que “sinal” estranho aquele! Não conseguiu almoçar nesse dia, mal falou com a mulher e filhos deixando a família receosa que algo estivesse a afetar a sua saúde. Quiseram levá-lo ao hospital, mas ele respondia que estava bem. Podia estar bem mas parecia um estranho no seu próprio ambiente!
No dia seguinte voltou à rotina de ir pegar o trem, mas ao chegar à estação sentiu-se quase cambaleando, voltou para casa e avisou a empresa de que não estava passando bem. Jamais faltara por essa razão de modo que, se profissionalmente isso não o afetava, os colegas e superiores ficaram preocupados.
De volta a casa foi sentar-se na mesma cadeira onde na véspera assistira ao estranho fenômeno, e ali esteve quase todo o dia à procura de compreender o que se tinha passado. Queria reagir, sair daquela espécie de torpor, e decidiu que no dia seguinte, sentindo-se bem ou mal, voltaria ao trabalho.
O dia correu-lhe pesado, e até os colegas estranharam o seu silêncio e quase absentismo. Como na véspera avisara que não se sentia bem, o que era verdade, pensaram que seria ou o começo ou final de algum resfriado mais forte.
No final do dia saiu, como de costume, depois de todos os outros, e foi para Victoria Station pegar o trem de volta a casa.
Sentado num canto da carruagem, procurava nas páginas do “Evening Standard”, que sempre lia nas viagens de regresso, algo que ocupasse a sua mente cansada nem ele mesmo sabia exatamente porquê.
Na sua frente sentou-se uma mulher jovem, muçulmana, a cabeça coberta com o tradicional hijad, e ao seu lado um homem de origem africana, de meia idade, folheando também o mesmo jornal.
A viagem durava habitualmente quase duas horas; dava tempo para muitas vezes ainda cochilar um pouco, mas nesse dia era no jornal que procurava distrair-se.
Pouco tinham andado, talvez uns quinze a vinte minutos e, de repente, outro estrondo imenso, atirou com todos os passageiros para fora dos seus lugares, sentiam-se ferragens a torcer e a gemer até que a carruagem finalmente parou, fora dos trilhos e inclinada sobre um dos lados.
A composição tinha-se chocado com outra parada irregularmente na mesma linha!
Ouviam-se gritos de dor e pedidos de socorro. Grande desordem e caos dentro de cada carruagem. Peter foi projetado nem ele mesmo percebeu para onde e como. Deve ter perdido os sentidos por alguns momentos e quando começou a ter consciência da situação, percebeu que tinha havido um grave acidente. Sangrava, mas nem percebia de onde. À sua volta corpos espalhados, contorcendo-se e sangrando. Perto, com um profundo golpe na cabeça, reconheceu a mulher que vinha sentada na sua frente. Deslocando-se com dificuldade e muita dor em todo o corpo, procurou ajudá-la. Com o seu casaco improvisou uma espécie de almofada onde deitou a cabeça da mulher, depois de ter afastado o véu, rasgado, deixando à vista uma ferida grande. Com palavras calmas ajudou a mulher a agüentar o sofrimento e ajeitou-a num canto da carruagem.
O homem que vinha a seu lado, jazia também, sem sentidos, uma perna retorcida. Tinha uma grave fratura exposta! Peter rasgou a sua camisa e fez um torniquete na perna do desgraçado que sofria horrivelmente.
Ajudou ainda alguns mais até que exausto se sentou num canto, aguardando socorros, que não tardaram. Todos levados para o hospital mais próximo, Peter só pensava porque razão ele havia socorrido primeiro uma mulher muçulmana e um negro! Podia ter ajudado uns outros quantos, mas foi a esses dois que dedicou a pouca energia que conseguiu reunir até cair exausto.
No leito do hospital começou a pensar que tudo quanto lhe estava a acontecer eram “coincidências” demais! Primeiro o raio e o trovão, e depois o auxílio que prestara tão imediato àqueles dois que considerava “semi” estrangeiros!
Seria tudo aquilo “obra” de Deus que lhe queria mostrar que a vida só tem valor quando a dedicamos, desinteressadamente, aos outros?
Tão logo teve alta do hospital foi direto à igreja e, meditando com humildade, foi-se apercebendo que o “tal” Deus, afinal, lhe dera um recado completo!

12-abr-10

do Brasil, por Francisco G. de Amorim

24 de fev. de 2010

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O Centro do Mundo - 2 -
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Apesar do Humanismo e do Iluminismo, e até da Loucura, terem procurado colocar o Homem como o Centro do Mundo, alguma coisa saiu errada.
Buda disse que “a vitória gera ódio, pois o vencido é infeliz” e “nunca no mundo ódio acaba através de ódio. Ódio acaba através do amor”.
Isto faz lembrar as loucuras de Hitler, as vinganças de Stalin, a estupidez de Bush, e outros “simpáticos” odientos.
Mais tarde Kung-Fu-tsé indicou algumas normas de vida, como “o que não queres que te façam, não faças a nenhum outro”. Jesus de Nazaré transformou esta norma em ação: “Faz aos outros o que gostarias que te fizessem”.
Chegamos ao “Bill of Rights” da Virgínia, base da tão aplaudida Constituição Americana: “Todos os homens são, por natureza, igualmente livres e independentes” e termina com esta sentença maravilhosa: “Cada um tem a obrigação de praticar o perdão, o amor e a caridade, um para com o outro”. Mas mantiveram a escravatura, a segregação, o ódio racial, a agressão gratuita, até hoje. E onde ficou a “Liberté, Fraternité, Egalité?”
Insistindo no valor do Homem vem a seguir a Declaração dos Direitos do Homem e repete que “os homens nascem livres e de direitos iguais e assim se conservarão”, que a Declaração Geral, da ONU volta a repetir. Mas onde está essa igualdade tão proclamada e teoricamente (só teoricamente) defendida desde a Magna Carta?
Que evolução teve o homem, para primeiro, ter necessidade de afirmar e reafirmar que todos são iguais, que nascem iguais, etc., e depois assistir todos os dias, desde sempre à grande maioria olhar para o outro simplesmente como um degrau para subir? Pisar na cabeça do outro, esmagar o outro, espoliar o outro, tirar-lhe tudo quanto for possível, para “meu” enriquecimento individual!
Promover guerras para vender armas, estrangular o mais fraco para lhe extorquir os últimos centavos, será este o Homem que todos os pensadores e legisladores tinham em mente?
De 24 a 26 do corrente haverá em Genève o 4° Congresso Mundial sobre a Abolição da Pena de Morte! Que hipocrisia leva estes pseudo congressistas a discutir um tema quando os mais fortes fazem o que querem, matam, dizimam sem qualquer julgamento, sem possivelmente consciência de culpa, além de criminosos, os opositores e milhares de civis e jovens militares que são obrigados a cumprir o seu dever “pela pátria”!
Vai adiantar alguma coisa condenar a China ou o Irão porque ainda têm pena de morte? E os Estados dos EUA que continuam com ela, de forma absolutamente aviltante que é condenar um indivíduo e depois fazê-lo esperar, por vezes mais de dez anos para ser executado?
Estes e outros congressos nada mais são do que um altíssimo negócio, e é aqui, também, que o Centro do Mundo aparece em toda a sua plenitude e verdade: o dinheiro. Congresso é negócio.
O dinheiro, a ganância, a ferocidade nas operações de bolsa e comerciais, a violência da China em querer dominar o mundo – e pouco falta – têm em mente o valor do Homem? Não. Tem unicamente como objetivo o brutal enriquecimento de alguns, a manutenção do poder de outros, a palavra de vida e de morte sobre mais outros, como essa Pena de Morte ou a declaração de guerras.
Não. O Centro do Mundo, por muito que façam declarações universais ou parciais, que se façam congressos, se insista com a ONU, o Centro do Mundo não é o Homem. É a ganância, o dinheiro, o poder.
A única igreja que, finalmente, parece dirigir-se para os pobres é a de Roma, mas está a custar-lhe adaptar-se aos tempos atuais, e vai perdendo vocações, fiéis e seguidores.

Em certa altura da minha resolvi arranjar uma propriedade agrícola, na montanha, onde pus umas dezenas de ovelhas. Tinha uma cadela, guarda, maravilhosa, que me seguia por todo o lado e se atirava a tudo que percebesse que eu não gostava.
Um dia o rebanho de cabras invadiu uma pequena plantação de feijão, que despontava cheio de esperança, e comeu aquilo quase tudo. Quando eu as vi a devorar o “meu” feijão zanguei-me, gritei para correr com as ovelhas e a cadela, “Uanga”, foi-lhes em cima e mordeu a perna de uma delas. Chamei-a logo, porque afinal ela era a guarda do rebanho, e fui ver a perna da ovelha mordida. Não tinha nada, nem sequer arranhou. Mas a ovelha começou a definhar e ao fim de uma semana, aparentemente sem nada, morria.
Aquilo fez-me muita confusão, e ouvi de velhos agricultores que as ovelhas eram, psicologicamente, muito sensíveis; quando agredidas ou mal tratadas morriam “de tristeza”! Sempre fiquei com isso na cabeça, até que um dia se fez luz; e está nos Evangelhos!
As ovelhas são os animais mais dóceis que existem. Os mais humildes.
Jesus expulsou os vendilhões, os comerciantes, e os fariseus, os pseudo-sábios. Disse-nos para olharmos os lírios dos campos e os passarinhos, que o Pai os vestia. Mandou que apascentássemos as “suas ovelhas”, o povo simples. Ele mesmo se intitulou o “Cordeiro de Deus”, o último, o mais humilde, e por isso mesmo o Primeiro.
Meditando nisto chega-se ao Gênesis quando Deus ao criar o mundo proibiu o Adão de comer o fruto da árvore da sabedoria, porque sabia que esta poderia envenenar a felicidade, e por desobediência, ganancioso, foi expulso do Paraíso.
Afinal o que tudo isto nos quer dizer: “Sede simples”. Bem aventurados os simples... os que não almejam a impor-se aos outros, os que vivem em comunhão com a natureza, os que respeitam e amam o Outro, qualquer que ele seja, que defendem os fracos e para quem o dinheiro, infelizmente um bem hoje indispensável, não ultrapasse o suficiente para se viver.
Se isto assim pudesse ser, voltaríamos com o Homem para o Centro do Mundo.
Assim como está, não.

23.fev.10

12 de fev. de 2010

O Centro do Mundo



Tempos houve quando para os “ocidentais” outras terras e povos eram desconhecidos, o seu mundo, pequenino, centrava-se à volta dum pequeno mar, que por essa razão era conhecido como “Medium Terram”, o Mediterrâneo.
Foi à volta deste mar que se desenvolveu o conhecimento ocidental, vindo do Egito e da Mesopotâmia, depois da Grécia, tendo a seguir se alastrado pelas orlas deste mar.
Os homens viviam com a crença que todos os males e eventuais bens que lhes chegavam eram dádivas de Deus, dum Deus qualquer, e todos os governantes não só lhe rendiam homenagens e templos, como não permitiam que alguém duvidasse das suas características divinas.
Esse “governo da divindade” um dia estabeleceu-se em Roma, e mesmo com a destruição do Império Romano os religiosos cristãos conseguiram segurar um pouco do conhecimento antigo, infelizmente não permitindo a sua divulgação e, pior ainda, da discussão dos princípios de que tudo seria ou não obra de Deus. Um dia surgiu um gênio que decidiu pôr em causa a sacralidade de muitos “fenômenos”, estudou e pintou o homem nos seus mais ínfimos detalhes, dissecou cadáveres de crianças e adultos, gordos e magros, para procurar entender como funcionava o corpo humano que ele tanto admirava.
Os detalhes a que desceu foram de tal forma minuciosos que ainda hoje a anatomia lhe deve desenhos e descobertas maravilhosas, e há até quem lhe chame gay pela beleza e detalhes das suas pinturas. Leonardo da Vinci.
Até Freud e sua psicose de que tudo estava subjugado ao sexo, interpretou um sonho de Leonardo com um abutre, afirmando que Leonardo da Vinci havia sido um homossexual latente!
Tu quoque, Freud?
Contemporâneo deste gênio, outra figura ímpar que se apercebe que os homens não recebem o mando das mãos de Deus, e que só alguns conseguem impor-se e governar. “O Príncipe” que serviu e serve de bíblia para todos os governantes do mundo, até hoje. Ensina-lhes como governar pela força, a tirania, desprezando a justiça e humanidade. Afirma que um homem bom se por acaso chega ao poder, e se aí se quer manter, vira um homem mau, enquanto um mau, mesmo que alcance o mando, jamais será um homem bom. Ensina ainda que a grande arte de governar é fazer o menos possível e representar o máximo perante o público, com ostentação, porque o povo não quer no topo um homem modesto, humilde e fraco.
Ainda hoje, por todo o mundo vimos que é o Império de Maquiavel que manda e sobretudo desmanda, raros, se algum há, a lutar pelo bem estar da sociedade. As forças do mal são muito mais fortes que as do bem...
Parecem de Maquiavel as seguintes palavras mas foram proferidas meio século antes por Aeneas Silvio Poccolomini, mais tarde Pio II (1458-64), “um ‘príncipe’ que não sabe ler as lições da história, é uma presa irremediável da lisonja e da integridade”!
Em contraponto ao despotismo, ao “príncipe do mal” aparece um sonhador, um “babaca” como eu, com a errada idéia de que “o amor ao próximo” é que resolve os problemas do mundo, e que essa maravilha se viveria “em lugar nenhum do mundo”: em Utopia! Quinze séculos antes já Alguém nos havia prometido o Reino dos Céus, desde que amássemos o próximo como a nós mesmos. Este foi logo cruxificado e o utópico Thomas More, do mesmo modo, e por benevolente “consideração do rei” foi simplesmente decapitado!
Aparece “A Loucura”; ela nos diz tudo aquilo que normalmente já deveríamos saber e na maioria das vezes “disfarçamos”!
Que os príncipes parecem infelizes mesmo com toda a exibição de esplendor, por nunca ouvirem a verdade, como os que subornam a lisonja de um orador para ouvir louvores, puras mentiras. Como diz o provérbio “Se ninguém te louva, louva-te a ti próprio”!
As pessoas ouvem com prazer maior o que não entendem, pois a sua vaidade está nisso interessada. E continua a Loucura a mostrar-nos que a ignorância e a irreflexão fazem esquecer as misérias e dão a esperança de alcançar a felicidade. A estes a vida deixa de lhes ser aborrecida, como aos velhos que atingiram idades avançadas e perderam todos os traços humanos, balbuciando, dizendo disparates, calvos, desdentados, sujos, curvados, tudo fazendo para rejuvenescer, pintando o cabelo, usando peruca ou dentaduras postiças, por vezes de dentes de porcos. Outras vezes apaixonando-se por menininhas e por elas fazendo maiores loucuras que um jovem, sabendo que essas garotas serão as mulheres de outros.
Ou ver as velhas que repetem que “A vida é bela”. Mulheres quentes que farejam o bode, que se pintam incessantemente, estão sempre em frente do espelho, depilam as partes secretas, estendem as mamas flácidas, e solicitam com gritinhos o desejo dos seus amantes e por algumas moedas seduzem jovens.
Que aqueles que as acham ridículas pensem se não valerá mais deixar correr a vida nessa loucura do que procurar lenha para a forca!
É verdade que não lhes importa a desonra que a sua conduta lhes traz aos olhos dos outros; não a sentem ou não lhes dão atenção. A vergonha, o opróbio, a infâmia, o insulto, só são males quando se sentem.
E assim a Loucura, a deusa, coloca o homem acima da ciência e do jugo do mundo. O homem, e a mulher, são o Centro do Mundo.
Com esta idéia um homem, nascido humilde, mas gênio indomável, fogoso, insurge-se contra a vergonha da vida do papado, vida de ostentação e despesa nessa altura com Leão X que decide mandar vender pela Europa indulgências para angariar dinheiro para a Basílica de São Pedro! Lutero nega-se a cumprir as instruções de Roma e faz nascer o grande movimento da Reforma da Igreja, de que tão necessitada estava.
E se já em causa estava a tal sacralidade dos reis e chefes, e do próprio papado pela vida dissoluta em que vivia e se exibia, os pensadores viraram-se para o intrínseco valor do homem e para as ciências.
Calvino teólogo e revoltado, trocou a ordem que parecia natural. Impôs a sua opinião em estilo maquiavélico e medieval, e valorizou o dinheiro face ao homem. Nascia o capitalismo.
Adam Smith vem novamente dar valor ao homem e sobretudo ao seu trabalho, através do qual se deviam quantificar os valores das mercadorias. A mão de obra era abundante, e o capital mandava. Foi preciso aparecer um escocês também de humilde origem para dar valor ao ser humano, procurando resolver os seus problemas através de associações, de cooperativas, quase um tipo do “amai-vos uns aos outros”, ou quando muito respeitai-vos e amparai-vos, e ninguém quis seguir o exemplo de Robert Owen!
Mas falava cada vez mais alto o capital, a exploração, as manobras financeiras, a mentira, e ninguém parece amar-se mais.
A Loucura do Amor não tem lugar num mundo atômico em que se gasta mais em equipamentos de matar do que em alimentos.
De repente olha para o Haiti porque parece mal ficar de fora, mas logo será abandonará à sua incapacidade e miséria.
Foi no “Medium Terram” que tudo para nós, ocidentais, começou. Só em Utopia poderia ter sido melhor. Com homens, não. Os homens não têm solução. É com se este mundo fosse o inferno de outro planeta! Aldous Huxley disse-o claramente.
Acabei de ver um filme comovente: “Hachiko - a Dog’s Story” estrelado por um cão Akita e Richard Gere. Que maravilha a amizade do cão, que me faz terminar este apontamento com um dito de Shopenhauer:

“Quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães”!



05.fev.10

1 de fev. de 2010

O Chico e a Ferramenta - 1 e 2


Vejam só que notícia sensacional que acabou de aparecer na Internet, em

Quarta, 5 de fevereiro de 2003, 17h47

Polícia Federal localiza prefeito de Ipatinga

A Polícia Federal localizou, em Belo Horizonte, o prefeito de Ipatinga (MG), Chico Ferramenta (PT). A família do prefeito não recebia notícias de Ferramenta desde a hora do almoço de segunda-feira, quando ele foi visto pela última vez em um restaurante na capital. Não mais detalhes sobre o estado em que se encontra o político.
O desaparecimento do prefeito provocou uma reação imediata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que orientou a Polícia Federal investigar o caso. Foi criada uma força-tarefa composta pela Polícia Civil, Polícia Federal e por representantes do Ministério Público.
Chico Ferramenta já foi deputado estadual e federal por Minas Gerais. É casado com Cecília Ferramenta (PT), empossada recentemente na Assembléia Legislativa do Estado, e está em seu terceiro mandato na prefeitura, o segundo consecutivo
Está-se mesmo a ver que a Polícia não contou a história toda. Nem alguma.
O Chico Ferramenta, depois de um bom almoço – prefeito não come mal, mesmo sendo do PT e estando a lutar contra a fome, dos outros – sumiu.
Dona Ferramenta, a outra, também deputada do PT, que isto de ser só um dá pouco rendimento à família, tanto mais quando é preciso fazer como o presidente Lula manda – comer três vezes ao dia, e isto em restaurante da capital... sai caro – quando se viu privada da sua ferramenta passada em cartório, alertou o chefe.
Chefe, que é chefe, mandou logo uma força tarefa, qual o W.Bush vai mandar para o Iraque, incluindo a Polícia Federal, o FBI cá do pedaço, investigar.
Dois dias depois o Chico Ferramenta é encontrado pela polícia que se fecha em copas!
Aí, o público leitor de notícias, que por acaso faz parte dum todo que se chama povo, quando é pobre ou de esquerda, ou população quando não é nem uma coisa nem outra, muito pelo contrário, começa a desconfiar que o Chico foi usar a sua ferramenta noutros consertos.
O que ele estava a consertar ou concertar quando foi descoberto, ou encontrado, ou achado, ou ... pela Força Tarefa, isso vai ele ter que explicar à outra. A dona Ferramenta.
E, ou o Chico tem um bom álibi, com parecer em papel timbrado pela Força Tarefa, e se explica muito bem, ou vai ter que guardar a ferramenta dele até enferrujar.
É.
Nós pagamos o almoço e a Força Tarefa. O Presidente preocupa-se. E o Chico fica só dois dias na capital das Gerais, todos pensamos que cheio de saúde, com a graça do Senhor, mas também temos o direito de pensar – haja liberdade de pensamento – que o tal Chico estaria usando a sua ferramenta para fins pouco dignos ou menos políticos.
Por enquanto só pensamos. Porque... será que a polícia vai divulgar o que ele estava fazendo quando foi encontrado?
O que vocês acham?
Boa noite.
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O Chico e a Ferramenta - 2

Ora aqui vai o desenlace do Chico:
Quinta, 6 de fevereiro de 2003, 14h43

Prefeito mineiro que sumiu pede licença do cargo

Depois de submeter a família e o Partido dos Trabalhadores a um vexame, o prefeito de Ipatinga, Chico Ferramenta (PT), enviou um comunicado à Câmara Municipal da cidade, nesta tarde, pedindo licença do cargo por tempo indeterminado. Em nota divulgada, ele pede desculpa à mulher, a deputada estadual Cecília Ferramenta, recém-empossada.
"Agradeço, particularmente, ao povo de Ipatinga pela solidariedade e suas orações e, de maneira muito especial, à minha esposa, deputada Cecília Ferramenta, por sua atitude exemplar e apoio insubstituível, diante da qual me desculpo publicamente", diz a nota.
O prefeito de Ipatinga, quarta cidade mais de rica de Minas Gerais, estava desaparecido desde a última segunda-feira, Ele foi encontrado ontem em um hotel do centro de Belo Horizonte, em companhia de uma mulher. Ela seria uma garota de programa identificada como "Zildinha".
Chico foi denunciado por um telefonema anônimo feito à polícia. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, chegou a pedir à Polícia Federal atenção especial para o caso. O secretário Nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, se deslocou de Brasília para a capital mineira para acompanhar o caso.
Ontem bem que nos parecia que a ferramenta do Chico estaria pendurada fora do lugar! Em vez de arrumadinha no local certo, estava com a Zildinha.
Quer dizer, em vez de estar a trabalhar no PT estava no GP. Garota de programa.
Isto é comovente. Já consta que a Globo vai fazer uma novela “O Chico e a Zildinha”. Por ora só têm o final previsto: o Chico chora, pede desculpa à ferramenteira chefe – que não pode dispensar uma boquinha com salário de deputado, e por isso ele tão humildemente pediu para “descansar” alguns dias (êna Zildinha braba!) – paga à Zildinha generosamente – não se sabe com que dinheiros, os ipatinguistas terminam a reza e vão fazer-lhe uma festa de recepção, com cartazes:
 
Viva o cabra macho – Chico Ferramenta

ou então

Chico – a ferramenta para qualquer porca

outros ainda

Ferramenta boa é a do Chico

etc.
Mineiro não se deixa abater por uma porcaria destas.
Ainda por cima o cara é deputado e estava de licença para prefeitar a cidade. Agora entra de licença da cidade para descansar uns dias depois da esfrega da Zildinha, e.... logo, logo volta à activa.
Quem ganhou mesmo foi a Zildinha. Recebeu o dela. Ficou famosa e consta que já tem a sua agenda de compromissos cheia até... que se esgotem as ferramentas.
E nós... afinal quem somos nós para emitir opinião?
O cara voltará um um dia a ser re-eleito, como o Collor, o Maluf, o.... , o.... , o....
Pshiuuuu. Aqui para nós que ninguém nos ouve: estão os homens todos com inveja do Chico, que é macho p´ra caramba, ganha bem, e ainda pede uns dias para descansar. E as mulheres? As mulheres? Perguntem em casa.
Afinal qual deus é o brasileiro? Alá que permite que os homens tenham quantas mulheres possam sustentar ou o Outro, humilde, que simplesmente disse para se respeitarem uns aos outros e por isso pregaram-n’O num madeiro?

Fev. 2003
01.fev.2003

24 de jan. de 2010

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Carioquices eclesiásticas

Em 10 de Julho de 1576 o papa Gregório XIII criou a Prelazia de São Sebastião do Rio de Janeiro sob a administração do Bispado de São Salvador da Bahia, instituindo um o prelado administrador com poderes e faculdades quase episcopais. O primeiro a ocupar o cargo foi o Presbítero do Hábito de São Pedro Bertolameu Simões Pereira, que não deve ter entrado com o pé direito porque começou logo a ser perseguido pelo povo, que se indispôs contra a demasiada autoridade que o prelado se arrogava, e este não teve outro remédio se não retirar-se e foi para a Capitania do Espírito Santo.
É bom ter em mente que naquele tempo os habitantes destas paragens, pelo menos um boa parte deles, tinha imigrado para longe de Portugal terra sujeita a excesso de autoridades: o rei, ainda a melhor delas, os nobres, e sobretudo os padres, bispos, etc., com a sua inexorável arma da excomunhão, sua prepotência e ainda com a constante ameaça da Santa – santíssima! – Inquisição.
O Novo Mundo apresentava-se-lhes como uma espécie de paraíso onde o Reino de Deus era oferecido a cada homem, independente de hierarquias e imposições, que na Europa já tinha dado origem à Reforma e a toda a evolução da ciência e “das luzes”! Ora um recém chegado disposto a fazer regredir a liberdade, com certeza não era “persona grata”. Tinha que ser um grande religioso, em toda a acepção da palavra, para cativar almas rudes. E grandes religiosos, houve, sim, mas não tantos quanto seria desejável.

Seguiu-se na Prelazia, o Bacharel João da Costa, logo também odiado e perseguido pelo povo. Retirou-se em 1591 para S. Paulo onde foi deposto e morreu.


A baía da Guanabara em 1666


Veio depois, em 1607, o Dr. Mateus da Costa Aborim. O povo entrementes não teve a quem prestar contas. Mas o tal Dr. Mateus, abusado, vexou o povo com monitórias e excomunhões; excomungou os vereadores por quererem demolir uma casa de frades beneditinos a qual embaraçava o embarque e desembarque dos moradores da Prainha (hoje a Praça XV); procurou dificultar a ação de um desembargador enviado da Bahia pelo Governador Geral para sindicar no Rio; e fez mais umas quantas semelhantes até que acabou envenenado em 1629. Ainda esteve 22 anos a encher o saco dos cariocas!
Seguiu-se um frade beneditino que não durou um ano. Renunciou!
Os primeiros prelados abusaram tanto da sua “autoridade” que quando chegou o Dr. Lourenço de Mendonça, em 1632, poucos dias depois já o povo colocava um barril de pólvora debaixo da sua cama, com quatro morrões acesos! Explodiu e destruiu a casa mas o tal Dr. Lourenço... não estava! Tão pouco gostavam dele que quiseram enfiá-lo dentro duma embarcação desapalherada e levá-la até alto mar onde servia abandonada! Soube o Dr. Lourenço do qeu se tramava contra ele, fugiu, refugiou-se num barco e regressou a Portugal!

Em 1643 calhou a vez ao presbítero secular António Martins Loureiro. Assim que chegou foi visitar terras da sua jurisdição, e em São Paulo, ou pela má vontade do povo ou por sua arrogância, foi perseguido. Refugiou-se com os franciscanos, e apesar do povo ter cercado o convento, consegui evadir-se, fugir para o Rio, e sempre odiado, ir para o Espírito Santo, onde lhe administraram veneno, perdeu o juízo e assim regressou a Portugal!


O Rio de Janeiro em 1713, e a Ilha das Cobras com a sua fortaleza


1658, o rei escolhe o Dr. Manuel de Sousa e Almada, que depois de curto governo já havia voltado o povo contra ele que o acusou diretamente ao rei. Uma noite apareceu em frente de sua casa uma peça de artilharia que disparou uma bala que se foi alojar numa das paredes. Procedendo-se à devassa veio a verificar-se que tinha sido o próprio Almada para se fazer de vítima! Condenado a pagar as custas do processo, desistiu do cargo e foi-se!

O seguinte não foi mais diplomata: o Dr. Francisco da Silveira Dias, começou a sua administração por excomungar os que cortavam mangue nas marinhas fronteiras às terras dos jesuítas; acusaram-no de simoníaco pelo benefício que daí tirava e não tardou a largar o posto!

Eram estes prelados comissários do “Santo Ofício” e da Bula da Cruzada, mais uma das invenções de Roma contra o que se insurgiu Martinho Lutero, mas que lhes dava um rendimento considerável. Além disso atormentavam o povo com penitências e excomunhões, intrometiam-se em negócios estranhos à Igreja, mandavam indagar aos navios que demandavam o porto do Rio, de onde vinham, para onde iam, que carga carregavam, impediam que saíssem mercadorias da alfândega sem autorização sua. Além de tudo isto eram, regra geral, gente de pouca instrução e rara moralidade!

Não primava também o povo pela moderação e bons costumes! Não admira, o “Mundo Novo” era terra de liberdade e liberdades!

Em16 de Novembro de 1676 a prelazia foi elevada a diocese, com direito a bispo! As coisas pareciam que estavam a melhorar. O primeiro bispo foi homem de ação, prudente e douto, começou a moralizar a vida dos padres e com isto também a do povo.

Assim andou a Diocese, melhorando-se a cultura dos padres, aumentando a fé e o respeito dos fiéis, até que em 1741 veio ocupar a Mitra D. Frei João da Cruz. Ao visitar as Minas mostrou-se de tal forma rigoroso e tanto exorbitou que o povo arrancou os badalos dos sinos para que não repicassem à sua passagem! Quatro anos depois renunciou ao cargo e o Governador apoiou a sua renuncia pois era excessivo o descontentamento do povo mineiro!


Um dos raros impressos do tipógrafo António Isidoro da Fonseca


Em 1745 veio de Angola o Bispo D. António do Desterro, beneditino. Teve uma chegada atribulada porque parece que o navio que o trazia terá arribado às “Ilhas de Maricá”, o que significava desastre possível, até que finalmente em 1746 a Fortaleza de Santa Cruz anunciou a sua entrada na Guanabara. Este foi um grande administrador, admirado, estimado, misericordioso, bom, que teve um triste fim de vida ficando os últimos sete anos bastante doente. Um exemplo de pastor, que foi sepultado no claustro do Mosteiro da sua Ordem. (Não admira ser tão bom: veio de Angola!)

Foi no seu tempo que o tipógrafo português António Isidoro da Fonseca pretendeu instalar uma tipografia no Rio de Janeiro, chegando a produzir alguns impressos, mas tão logo em Portugal se tomou conhecimento desta “transgressão”, por ordem régia foram seus bens seqüestrados e queimados e o tipógrafo deportado para Lisboa!

Enquanto o Rio não teve o seu Bispo, parece que “as coisas” não corriam muito bem. Mas uma boa lição se pode tirar dessas brigas entre prelados e povo: o povo sabia reclamar, exigir os seus direitos, não se deixava espezinhar, mesmo que fosse ele mais inculto do que hoje (Seria?)

Mas essa força popular parece ter-se perdido. Hoje os administradores públicos mandam, desmandam, roubam, não fazem, e ao povo não lhe sobra disposição para exigir os seus direitos! Parece que perdeu a noção da sua força, além de estar dividido pelas teóricas ideologias políticas. Naquele tempo era “Povo unido...”

Que pena!



N. Estes elementos da vida carioca, foram recolhidos no livro “Rio de Janeiro – Sua história, monumentos, homens notáveis e curiosidades” – Vol. I, de Moreira de Azevedo, 3ª edição de 1969, ricamente anotada por Elysio de Oliveira Belchior. O primeiro volume saiu do prelo em 1861


24 jan. 10

15 de jan. de 2010


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Rio de Janeiro
Um pouco de história

Faz o que ele diz, não faças o que ele faz! Bem tenho prometido, quase jurado e trejurado que não falaria mais de política, mas volta e meia a agonia pela vergonha e descalabro é tão grande que acabo expulsando uns quantos vitupérios, sem nada ganhar com isso.
Qualquer dia vou escrever sobre maquiavélicos e utópicos, ou babacas, como eu, somente para filosofar um pouco e acabar por me certificar, uma vez mais, que o mundo não é dos bonzinhos, mas dos f.d.m., i.é, dos gangsters.
Entretanto creio ser mais interessante pesquisar e divulgar um pouco a história desta cidade “maravilhosa”. E tem muita história, apesar de, por esse mundo fora, do Rio, quase só se ter notícia das suas praias, do Corcovado, Pão de Açúcar e das mulatas do Carnaval que, convenhamos, são monumentos às carnes humanas, algumas com longa história, muita “reforma” e plástica, mas, e a história da cidade?
Vamos nessa, apesar de haver bastante literatura sobre a história do Rio, sempre há lugar para mais uma ou outra passagem. Mas para não soltar lorotas ou simplesmente copiar o que se encontra por aí escrito, vá de sair em “excursão histórica” pelo Rio.

Como é de calcular não encontramos os primeiros europeus que se estabeleceram nestas bandas, na Baía da Guanabara, uns quantos franceses huguenotes que, fugidos à acesa intolerância religiosa no seu país, decidiram vir, em 1555, criar, em lugar tranqüilo – paradisíaco – a França Antártica. Comandados pelo senhor Nicolas Durand de Villegagnon, estabeleceram-se numa pequena ilha aparentemente segura, um pouco afastada da praia, a que deram o nome de Forte Coligny, homenagem ao Almirante Coligny, líder dos huguenotes em França, conhecida antes como ilha Sergipe, e mais tarde rebatizada com o nome de Villegagnon, onde hoje se encontra a Escola Naval.


Governava o Brasil, a partir da Bahia, Mem de Sá, que não gostou de intrusos em “terras d’El rei de Portugal”, e ao fim de algum tempo organizou uma expedição que veio ao Rio dar uns tapas nos franceses. Venceu-os e mais aos seus (poucos) aliados nativos e regressou à Bahia.

Mem de Sá

Não tardou a saber que os franceses continuavam instaladões no Forte Coligny. Nessa altura Mem de Sá achou que tinha que dar mais umas pauladas nos “hereges” franceses e organizou nova expedição que entregou ao comando do seu sobrinho Estácio de Sá.
Desembarca este na Baía da Guanabara em 1565, onde, na base do morro do Pão de Açúcar, lançou os fundamentos duma nova cidade, a que deu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro, dia 1° de Março daquele ano.



Começa por fincar no chão um marco de pedra, um padrão com as armas de Portugal em um dos lados e uma cruz no lado oposto, marca da posse e da fundação da cidade, ergue uma ermida de pau a pique e cobertura de palha, dedicada ao santo do nome do rei de Portugal, organiza os serviços da “cidade”, distribui terras e cargos, e dá um monte de bordoada nos franceses e seus amigos.

Entretanto Mem de Sá volta ao Rio para dar uma mão na luta contra o “invasor” e decide mudar a “cidade” para um morro, acima do rio da Carioca, que se chamou o Castelo.

Na frente. o Morro do Castelo


Visto do alto do Morro. Na frente a Ilha de Villegagnon,
hoje encostada ao Aeroporto Santos Dumont

Dois anos depois, em 1567, morre Estácio de Sá, tal como o santo que deu o nome à cidade, vítima duma flechada num olho recebida na batalha em Uruçu-Mirim, hoje a área da praia do Flamengo!

Assume o “governo” da cidade seu primo Salvador Corrêa de Sá – o Velho, para não confundir com o neto Salvador Corrêa se Sá e Benevides – que manda erguer nova ermida, desta vez em taipa, no alto do morro do Castelo, e para lá transfere os restos mortais do fundador da cidade, colocando sobre a campa uma lápide com os dizeres:




“AQUI IAZ ESTÁCIO DE / SÀA Pr° CAPITÃO E CÔ/QVISTADOR DeSTA TERRA E/ CIDADE E A CAMPA MÂ/DOV FAZER SALVADOR CORÊA DE SÀA SEV P/RIMO SEGD.° CAPITÃO/ E GRDº, CÔ SVAS ARMAS/ E ESTA CAPELLA ACA/BOV NO ANO DE 1583”.




Placa em latão que cobre a lápide original



Em 1569 já a ermida era elevada a Matriz da Freguesia de S. Sebastião, a primeira criada na cidade, e 107 anos depois a Igreja Catedral, entregue aos jesuítas.


A Igreja de São Sebastião no alto do Morro do Castelo

O Castelo ficava lá.... lá no alto do morro e a subida era braba!. Aos poucos os habitantes da cidade foram-se instalando nas áreas planas circunvizinhas, misturadas muitas delas a alagadiços doentios, e não tardou a que a Igreja de São Sebastião ficasse abandonada.
Em 1729 chegaram ao Rio dois monges capuchinhos que iam para a Missão em S.Tomé (e Príncipe). Uma vez aqui, onde o navio fazia escala, decidiram ficar e foram residir na Ermida do Bom Jesus, donde foram despejados quando esta ermida foi comprada pela Irmandade dos Homens Pardos. Passaram ao Palácio Episcopal na altura vago por morte do bispo. À chegada do sucessor do bispo, lá foram os capuchinhos corridos, para a Ermida do Desterro, que estava muito arruinada, e autorizaram-nos então a residir na Ermida da Senhora da Ajuda. Mas o povo não gostou desta intromissão e novamente vão os capuchinhos para uma casa próxima à Igreja da Conceição! Mas esta casa fora cedida para ali se criar um seminário (de S. José) e outra vez os capuchinhos são postos a andar! Dezenove anos depois, em 1739, continuam os “padres barbadinhos” peregrinando para um pobre e humilde hospício, com sua capelinha de invocação da Senhora da Oliveira.

Ajudados com esmolas do povo, concluíram o hospício em 1742, e finalmente foi dada posse desta casa aos frades capuchinhos!

Foi na horta destes frades que se plantaram os dois primeiros cafezeiros trazidos do Pará em 1761!


O que foi o convento dos jesuitas e depois Observatório,
tudo com ar de abandono

Com o passar do tempo a Igreja de São Sebastião, lá no alto do morro continuava abandonada; foram caindo telhado e paredes e só no governo do Conde de Resende, 1796-1801, com esmolas do povo, é que se procedeu à reconstrução do que não era mais do que um monte de ruínas, evitando que o antigo edifício desaparecesse de vez.

Com a chegada da família real mudaram-se os frades carmelitas para o Hospício dos Barbadinhos, e certamente por estarem já de “saco cheio” de andarem de Herodes para Pilatos, em 1831 os capuchinhos, aliás o único que restava, Frei António de Génova, entregou a Igreja e foi-se para a Europa.

Mas... em 1842 chegam novos frades desta congregação e o governo e o bispo deram-lhes então a Igreja de S. Sebastião, no alto do morro do Castelo, que mais uma vez estava abandonada ameaçando desmoronar! Madeiramento podre, a ruir, rachas nas paredes, etc. Reconstruíram-na, edificaram outro hospício, e ali ficaram até que o morro do Castelo foi desmontado em 1922!

Exumados os ossos do fundador da cidade, foram levados em solene procissão até ao Convento provisório dos Capuchinhos, de onde passaram para a nova Igreja de São Sebastião, na rua Haddock Lobo, acabada de construir em 1931, e onde descansam até hoje!

A "nova" igreja de São Sebastião, na rua Haddock Lobo, Tijuca.
"Nova"! É exatamente da minha idade!


Detalhe da nova Igreja, com a alegoria a Estácio de Sá
A arquitetura desta Igreja é de gosto discutível, mas ali repousam os ossos do fundador do Rio de Janeiro, Estácio de Sá, cobertos com a mesma lápide que lhe mandou fazer seu primo e segundo governador do Rio, lápide esta hoje coberta por outra igual, fundida em latão, que jaz em frente ao altar mor da Igreja. Na mesma Igreja, de lado, está também o padrão original, que aquele mandara fazer para simbolizar a fundação da cidade que viria a ser maravilhosa.


O padrão da "Cidade Maravilhosa"!
Vale a pena a visita. E lembrar o ato heróico daquele que, de acordo com o estudo da ossada feita quando se restaurou a sua campa, em 1862/63, seria um típico português de 1,74 m de altura!

Como se vê há uma profunda ligação entre Estácio de Sá, os frades capuchinhos, o Morro do Castelo, e tudo quanto deste sobra, dos primórdios deste Rio, maravilhoso, a Ladeira da Misericórida, o único acesso ao topo do Morro, e que subsiste, encostada ao edifício da Santa Casa da Misericórdia, para que os cariocas, os brasileiros, e os portugueses também, porque não?, não esqueçam como seria este Rio há quatro séculos e meio!


O que "sobra" do Morro do Castelo: a Ladeira da Misericórdia!


A Ladeira que não leva a lugar algum, mas que é a mais antiga remeniscência da velha cidade.


15-jan-10